Ficha tcnica:
Ttulo: Brooke - livro 3 da srie rfs
Ttulo original: Brooke
Autor: V. C. Amdrews
Srie: rfs
Gnero: romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Airton Simile Marques e Vtor Chaves
Reviso: Marcilene Chaves
Numerao de pginas: cabealho.

Sinopse

Aquilo era como um tapete mgico que a levaria para uma vida nova e encantadora...
Nos sonhos mais secretos de Brooke, algum dia sua me voltaria ao orfanato para busc-la, cheia de remorso por t-la deixado ali durante tanto tempo.
Mas no  isso o que acontece.
Brooke nunca imaginara que um casal rico, parecendo artista de cinema, pudesse dizer "Vamos ficar com ela", levando-a para sua casa.
Pamela Thompson e seu marido, Peter, parecem felizes por acolh-la em sua manso.
Brooke  matriculada numa escola particular de garotas esnobes. Passa a ter aulas dirias de etiqueta e maquilagem. Cada pea de roupa  planejada para prepar-la 
para um futuro concurso de beleza. Mas Brooke quer apenas levar uma vida familiar comum... e jogar no time de softball da escola, onde seus verdadeiros talentos 
so apreciados. E  quando ela est no campo com as amigas que pode escapar do terrvel pressentimento de que deve ser sempre obediente... ou se arriscar a perder 
sua grande chance de ter um sobrenome, um lar e a libertao dos terrveis segredos do seu passado.

V. C. ANDREWS

Brooke

Vol. 3 - Srie rfs
Traduo de A.B. Pinheiro de Lemos
BERTRAND BRASIL
Copyright (r) 1998 by the Virgnia C. Andrews Trust and The Vanda Partnership.
Publicado mediante contrato com o editor original, Pocket Books, New York.
Depois da morte de Virgnia Andrews, a famlia Andrews passou a trabalhar com uma escritora escolhida com o maior cuidado, a fim de organizar e completar suas histrias, 
alm de criar romances adicionais, como este, inspirado por seu gnio na fico.
Este livro  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e incidentes so produtos da imaginao da autora ou usados de maneira fictcia. Qualquer semelhana 
com eventos reais, como locais ou pessoas, vivas ou mortas,  mera coincidncia.
Ttulo original: Brooke
Capa: Silvana Mattievich, usando ilustrao de Lisa Falkenstern
Editorao: Art Line
2000
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
A581b Andrews, V. C. (Virgnia C.)
Brooke V. C. Andrews; traduo A. B. Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
160p. - (Srie rfs; 3)
Traduo de: Brooke Continuao de: Crystal
1. Romance norte-americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de (Alfredo Barcellos Pinheiro de), 1938-. II. Ttulo. III. Srie.
CDD - 813
99-1330 CDU - 820(73)-3
Todos os direitos reservados pela: BCD UNIO DE EDITORAS S.A.
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No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
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Prlogo

Quando vi Pamela Thompson pela primeira vez, pensei que estava olhando para uma artista de cinema. Eu tinha doze anos, os cabelos louros descendo at os ombros. 
Na maior parte do tempo, mantinha-os presos com a fita rosa desbotada que minha me pusera pouco antes de me largar no orfanato e desaparecer de minha vida. Como 
ainda no tinha dois anos na ocasio, no me lembro dela. Mas muitas vezes me imagino como um pio, girando e girando, at parar. Nesse instante me descubro perdida 
no sistema de amparo  infncia e adolescncia, transferida de uma instituio para outra, at acabar uma manh contemplando aturdida aquela mulher alta e encantadora, 
com deslumbrantes olhos azuis e cabelos dourados.
O marido, Peter, alto e to distinto quanto um presidente, postava-se ao seu lado, os braos cruzados, sorrindo para mim. Era meados de abril, em Monroe, uma pequena 
comunidade suburbana de Nova York, mas Peter estava to bronzeado quanto algum na Califrnia ou Flrida. Formavam o casal mais atraente que eu j conhecera. At 
mesmo a assistente social, sra. Talbot,
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que no tinha muita considerao por ningum, parecia impressionada.
No pude deixar de me perguntar: - O que duas pessoas to fascinantes querem comigo?
- Ela tem uma postura perfeita, Peter - comentou Pamela. - Repare como os ombros se mantm empinados.
- Tem razo,  mesmo perfeita.
Ele sorriu e acenou com a cabea, sem desviar os olhos de mim. Os olhos verdes suaves tinham um brilho cordial. Os cabelos eram ruivos, to brilhantes e bem cuidados 
quanto os da esposa. Pamela agachou-se ao meu lado, nossos rostos ficaram quase juntos.
- Olhe para ns lado a lado, Peter.
- Estou vendo. - Ele riu. -  espantoso.
- Temos o mesmo nariz e a mesma boca, no ?
- Idnticos.
Pensei que ele devia ter um problema de vista. No ramos nem um pouco parecidas.
- E os olhos?
- Os dela tambm so azuis, mas os seus tm uma tonalidade esverdeada.
-  o que sempre dizem quando me descrevem - comentou Pamela para a sra. Talbot. - Olhos azuis com uma tonalidade esverdeada. Apesar disso, Peter, so bem parecidos.
- Tem razo.
Ela pegou minha mo e estudou os dedos.
- Pode-se prever muita coisa sobre a beleza em potencial de uma pessoa atravs do exame de seus dedos. Foi o que Miss Amrica me disse no ano passado. Tenho de concordar. 
Estes dedos so muito bonitos, Peter. As articulaes no sobressaem. Brooke, voc tem rodo as unhas, no ?
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Pamela contraiu os lbios, para indicar que era uma coisa inadmissvel. Olhei para a sra. Talbot.
- No roo as unhas.
- Ento, quem as cortou no fez um bom trabalho.
- Ela mesma corta suas unhas, sra. Thompson - declarou a sra. Talbot. - As garotas aqui no tm qualquer tipo de cuidado de beleza.
Pamela sorriu para ela, como se a sra. Talbot no soubesse do que falava. Depois, empertigou-se e disse:
- Vamos lev-la. Certo, Peter?
- Claro.
Minha impresso era de ter sido comprada. Olhei para a sra. Talbot, que franzia o rosto em desaprovao.
- Algum ir entrevist-la dentro de uma semana, sra. Thompson - disse ela. - Se quiserem ir  minha sala para preencher os formulrios...
- Uma semana? O que vamos fazer, Peter? Peter adiantou-se.
- Posso usar seu telefone, por favor, sra. Talbot? Ela ficou aturdida.
- Creio que posso abreviar o processo - acrescentou Peter. - Sei como vocs vivem ansiosos em encontrar lares apropriados para as crianas. Estamos do mesmo lado.
Ele sorriu. Compreendi naquele instante que ele podia ser muito insinuante quando queria. A sra. Talbot empertigou-se.
- No se trata de uma questo de lados, sr. Thompson. Temos de cumprir todas as exigncias.
- Sei disso. Posso usar seu telefone?
- Pode.
- Obrigado.
A sra. Talbot deu um passo para o lado. Peter entrou na sala dela.
- Estou emocionada com voc - disse-me Pamela,
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enquanto Peter telefonava. - Posso ver que cuida bem dos seus dentes.
- Escovo duas vezes por dia.
- Eu no achava que fosse alguma coisa especial.
- Algumas pessoas tm bons dentes naturalmente - comentou ela para a sra. Talbot, cujos dentes eram um pouco tortos e escuros. - Sempre tive bons dentes. Os dentes 
e o sorriso so as marcas registradas de uma pessoa, Brooke. Nunca os negligencie. Nunca negligencie qualquer coisa, os cabelos, a pele ou as mos. Que idade acha 
que tenho? Vamos, d um palpite.
Tornei a olhar para a sra. Talbot, em busca de ajuda. Mas ela desviara os olhos para a janela, tamborilando com os dedos na mesa da sala de reunies.
- Vinte e cinco - respondi.
- Compreende agora? Tenho trinta e dois anos. No digo a todo mundo,  claro. S falei agora para comprovar meu argumento.
Ela olhou para a sra. Talbot.
- E que argumento  esse, sra. Thompson?
- Que argumento? Ora, simplesmente que voc no precisa envelhecer antes do tempo se cuidar direito de si mesma. Voc canta, dana ou faz qualquer coisa criativa, 
Brooke?
- No - respondi, hesitante, pensando se no deveria inventar alguma coisa.
- Ela  a melhor atleta do orfanato, e eu diria que da escola tambm - gabou-se a sra. Talbot.
- Atleta? - Pamela riu. - Esta menina no ser alguma atleta escondida nas ltimas pginas das revistas de esporte. Vai aparecer na capa das revistas de moda. Olhe 
para seu rosto, repare nas feies, em toda a perfeio. Se eu tivesse concebido uma filha, Brooke, seria igual a voc. E ento, Peter?
Ele sorriu, voltando  sala.
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- H algum no telefone querendo lhe falar, sra. Talbot.
Peter piscou para Pamela, que ps a mo em meu ombro e puxou-me.
- Brooke, querida, voc vai para casa conosco.
Quando se  criada no mundo dos orfanatos, com toda a sua burocracia, no se pode deixar de ficar impressionada com as pessoas que tm o poder de estalar os dedos 
e conseguir o que querem.  emocionante.  como se voc fosse arrebatada de repente por um tapete mgico e o mundo que julgava reservado apenas aos poucos afortunados 
eleitos passa a ser seu tambm.
Quem poderia me culpar por correr para os braos deles?
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Um novo jogo
Nos meus sonhos mais secretos, do tipo que a gente mantm escondido debaixo do travesseiro e espera encontrar aguardando na escurido assim que fecha os olhos, eu 
via minha me verdadeira entrando no orfanato. No era nada parecida com os Thompson. No estou querendo dizer que minha me no era bonita tambm, como Pamela, 
porque ela era. E no meu sonho nunca parecia tambm mais velha do que Pamela.
A me em meus sonhos tinha a mesma cor dos meus cabelos e dos meus olhos. Era igual, suponho, ao que eu pensava que seria quando crescesse. Era bonita por dentro 
e por fora, sabia fazer as pessoas sorrirem. No momento em que as pessoas tristes a viam, esqueciam sua infelicidade. Com minha me ao meu lado, eu tambm esqueceria 
como era ser infeliz.
Em meu sonho, ela sempre me reconhecia entre os outros rfos, sem a menor hesitao; e quando eu a via parada na porta, sabia no mesmo instante quem ela era. Mame 
estendia os braos e eu corria para seu abrao. Ela cobria meu rosto de beijos, murmurava uma poro de desculpas. Eu no me importava com as desculpas, de to feliz 
que me sentia.
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- Voltarei em poucos minutos - dizia ela, antes de entrar no escritrio para assinar todos os documentos.
No instante seguinte eu saa do orfanato, segurando sua mo, entrava no carro, e partia para comear minha vida nova. Teramos muito para dizer, tanta coisa para 
pr em dia, que falaramos sem parar at o momento em que ela me poria na cama, com um beijo e a promessa de permanecer sempre ao meu lado.
Claro que era apenas um sonho. Minha me nunca veio. Nunca falei sobre ela, nunca fiz qualquer pergunta a seu respeito a algum do orfanato. Sabia apenas que ela 
me deixara porque era jovem demais para cuidar de mim. No fundo do meu corao, no entanto, no podia deixar de acalentar a esperana de que ela sempre planejara 
voltar para me buscar quando tivesse idade suficiente para cuidar de mim. Tinha certeza de que ela acordava, muitas noites, como acontecia comigo, e pensava em mim, 
como eu parecia, se me sentia solitria ou amedrontada.
Ns, rfos, no amos a muitos lugares alm da escola, mas de vez em quando havia uma excurso escolar  cidade de Nova York, para ir a um museu, uma exposio 
ou algum espetculo determinado. Sempre que entrvamos na cidade, eu comprimia o rosto contra a janela do nibus, e estudava as pessoas que passavam apressadas de 
um lado para outro da calada. Minha esperana era avistar uma mulher ainda jovem que pudesse ser minha me. Sabia que tinha tanta chance de conseguir isso quanto 
de ganhar na loteria, mas era um desejo secreto... e, no final das contas, desejos e sonhos so as coisas que mais alimentam os rfos. Sem isso, ficaramos perdidos 
e esquecidos.
No posso dizer que algum dia imaginei que pessoas como Pamela e Peter Thompson pudessem querer se tornar meus pais adotivos... e depois me adotar, me deixar
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fazer parte de sua famlia para sempre. Pessoas to ricas e importantes quanto eles tinham outros meios de arrumar crianas, em vez de procurarem um orfanato comum 
como aquele. Com toda certeza, no saam a procurar pessoalmente. Mandavam algum faz-lo.
Por isso, senti que ganhara na loteria naquele dia, quando deixei para trs o orfanato com eles. Vestia uma cala jeans, tnis e uma T-shirt do New York Yankees. 
Trocara um cartaz de Party of Five por aquela camiseta. Ao ver que o resto do meu guarda-roupa era assim, Pamela declarou a Peter:
- Deixe essas coisas. Deixe todo o passado dela para trs, Peter.
Eu no sabia o que dizer. No tinha muitos bens importantes. Na verdade, a nica coisa importante para mim era uma fita rosa desbotada, que supostamente usava no 
dia em que minha me me abandonara. Consegui guard-la no bolso do jeans.
- Nossa primeira parada ser na Bloomingdale's - anunciou Pamela.
Peter parara seu Rolls-Royce na frente do orfanato. Eu j ouvira falar desses carros antes, mas nunca vira nenhum. Parecia folheado a ouro. Sentia-me atordoada demais 
para perguntar se era ouro de verdade. O interior recendia a novo, o couro era macio. Eu no podia sequer imaginar quanto devia ter custado. Vrias crianas olhavam 
pelas janelas, os rostos comprimidos contra o vidro. Pareciam estar num aqurio. Acenei antes de entrar no carro. Quando nos afastamos, tive a sensao de que era 
levada para longe num tapete mgico.
No pensei que Pamela queria dizer literalmente que iramos direto para a Bloomingdale's, mas foi para l que Peter nos levou. Todos conheciam Pamela na loja de 
departamentos. Assim que entramos, as vendedoras dispararam para cima de ns, como tubares. Pamela
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rejeitou as ofertas com um aceno de mo. Saiu andando pelos corredores, apontando para isto e aquilo. Passamos horas experimentando roupas.
Enquanto eu experimentava os mais diversos trajes, blusas, saias, casacos, at chapus, Pamela e Peter sentavam como membros da audincia num desfile de modas. Nunca 
antes eu experimentara tantas peas de roupa diferentes, muito menos as vira. Pamela parecia to preocupada com a maneira como eu usava as roupas quanto com o ajuste 
delas. No demorou muito para eu sentir que tinha de me comportar como modelo.
- Devagar, Brooke, ande devagar. Mantenha a cabea erguida, os ombros para trs. No esquea a boa postura agora que est usando roupas que realam sua aparncia. 
Quando se virar, faa uma pequena pausa. Assim mesmo. Usa a saia muito alta na cintura. - Ela soltou uma risada. - Age como se quase nunca usasse uma saia.
-  isso mesmo. Sinto-me mais  vontade de jeans.
- Jeans? So ridculos. No h linhas femininas que se salvem em jeans. No sabia que as bainhas estavam to altas este ano, Millie.
Ela falava com a vendedora que me atendia.
- Esto, sim, sra. Thompson.  a ltima moda.
- A ltima moda? No  mesmo. Para a ltima moda, voc teria de ir a Paris. O que temos em nossas lojas agora j vem com meses de atraso. No suspenda os braos 
assim, Brooke. Fica muito dura. Parece at que est prestes a pegar uma bola de beisebol. No concorda, Peter?
- Concordo - responde ele, rindo.
Pamela chegou ao ponto de se levantar para me mostrar como andar, suspender os braos, virar-me, erguer a cabea. Por que era to importante saber de
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tudo isso enquanto eu experimentava roupas? Ela se antecipou  pergunta.
- No se pode saber at que ponto essas roupas ficaro bem em voc se no us-las corretamente, Brooke. Postura e porte so os dois elementos principais da elegncia. 
Vo ajud-la a fazer com que qualquer roupa que vista parea especial, entende?
Acenei com a cabea. Pamela sorriu.
- Voc tem se mostrado to boa, Brooke, que acho que merece algo especial. No acha tambm, Peter?
- A mesma idia me ocorreu. O que sugere, Pamela?
- Ela precisa de um bom relgio para esse pulso precioso. Pensei num daqueles novos relgios Cartier que avistei ao entrarmos na loja.
- Voc est absolutamente certa... como sempre - comentou Peter, com uma risada.
No fui capaz de falar quando vi o preo do que Pamela chamava de um bom relgio. O vendedor tirouo do mostrurio e ps em meu pulso. Parecia quente demais. Fiquei 
apavorada de quebr-lo ou perd-lo. Os diamantes faiscavam no mostrador.
- S precisa de um pequeno ajuste na corrente para caber nela - declarou Pamela, levantando meu brao para que Peter pudesse ver o relgio no pulso.
Ele balanou a cabea.
- Ficou timo nela.
-  muito dinheiro - murmurei.
Se Pamela ouviu, preferiu fingir que nada escutara.
- Vamos lev-lo - declarou Peter.
Como seria o Natal? Eu me sentia atordoada de participar de uma expedio de compras que no levava o custo em considerao. At que ponto meus novos pais eram ricos?
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No pude acreditar em meus olhos quando vi a casa que Pamela e Peter chamavam de lar. No era uma casa; era uma manso, como Tara em E o Vento Levou. Era mais alta 
e mais larga do que o orfanato, com colunas compridas e degraus que pareciam de mrmore, levando a um prtico de mrmore. Havia tambm uma varanda menor no segundo 
andar.
O gramado que se estendia pela frente da casa era maior do que dois campos de beisebol lado a lado, pensei. Avistei fontes e bancos. Dois homens idosos, de cala 
e camisa brancas, aparavam um canteiro de flores, que parecia to largo e comprido quanto uma piscina olmpica. Quando entramos no caminho circular, descobri que 
havia uma piscina atrs da casa, alm do que pareciam ser cabanas.
- Gostou? - perguntou Pamela, com intensa expectativa.
- S vocs dois moram aqui? Eles riram.
- Temos criados que dormem numa parte da casa, mas s Peter e eu moramos aqui.
-  enorme...
- Como sabe, Peter  advogado. Trabalha para grandes empresas. Tambm tem uma participao ativa na poltica estadual. Foi por isso que conseguimos trazela para 
casa to depressa. E j sabe que eu quase fui Miss Amrica. - Uma pausa e ela acrescentou, sem a menor modstia: - Durante muitos anos fui uma top model.  por isso 
que sei tanto sobre elegncia e aparncia.
- Acho que estamos deixando-a atordoada, Pamela - comentou Peter.
- No h outro jeito. Temos muito o que fazer. No podemos dar informaes sobre nossa vida com
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conta-gotas, Peter. Ela precisa entrar logo no clima. No  mesmo, querida?
- Acho que sim - balbuciei, ainda espantada quando paramos.
A porta da frente foi aberta no mesmo instante. Um homem alto e magro, com cabelos grisalhos por cima das orelhas, saiu apressado, seguido por uma morena baixa, 
com um uniforme azul de criada, um avental de renda branca por cima da saia.
- Ol, Sacket - disse Peter, ao saltar do carro.
- Ol, senhor.
O homem devia estar na casa dos cinqenta ou sessenta anos. Tinha olhos pequenos e escuros, um nariz comprido que dava a impresso de ainda estar crescendo, para 
alcanar a boca fina e o queixo pontudo. A palidez do rosto fazia com que a cor nos lbios parecesse batom.
- Seja bem-vindo, sr. Thompson - disse ele, numa voz muito mais grave do que eu podia imaginar.
O som dava a impresso de comear no estmago e ecoar na boca, com a ressonncia de um rgo de igreja.
A criada se movimentava em torno do carro como uma mariposa, esperando nervosa que Pamela desse as ordens. No parecia ter mais do que trinta anos, mas era muito 
feia, sem maquilagem, o nariz pequeno demais para a boca larga e grossa. Os olhos castanhos irrequietos piscavam sem parar. Ela enxugou as mos no avental e recuou 
quando Pamela saiu do carro.
- Comece por levar os pacotes na mala para o quarto de Brooke, Joline.
- Pois no, madame.
Ela me lanou um rpido olhar e deu a volta para se juntar a Sacket atrs do carro. Os dois comearam a pegar minhas coisas.
- Peter, pode mostrar a casa a Brooke enquanto
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me arrumo? - Pamela virou-se para mim. - Viajar e fazer compras podem deixar sua pele ressequida, ainda mais quando se entra nessas lojas de departamentos, com seu 
ar-condicionado central. Sem falar na poeira.
- No se preocupe, querida. Brooke...
Ele estendeu o brao. A princpio, no entendi. S quando ele chegou mais perto  que passei o brao pelo seu.
- Vamos dar uma volta por seu novo lar? - acrescentou Peter, sorrindo.
Olhei para os criados, levando minhas coisas para dentro da casa, os jardineiros podando e cuidando das flores, sebes e gramados, a vastido da propriedade. Minha 
cabea comeou a girar. Tudo aquilo me deixava atordoada.
Meu novo lar?
Durante toda a minha vida s tivera quartos que no eram maiores do que um closet, s vezes at partilhando o espao com outra rf. Dividia o banheiro com meia 
dzia de outras crianas na maioria das ocasies. Comia num refeitrio, lutava para assistir ao que queria num nico aparelho de televiso, protegia meu reduzido 
espao como a mame ursa defendendo seus filhotes.
E de repente, quase que num piscar de olhos, era levada para o que parecia ser um palcio. No conseguia falar. O n na garganta era to grande que eu tinha a sensao 
de ter engolido uma ma. Apoiei-me de verdade no brao de Peter. Ele me levou pelos degraus para a imponente porta da frente, pela qual Pamela passou apressada, 
como se a casa fosse um santurio contra as foras do mal que queriam roubar sua beleza.
- Voil! - exclamou ele, dando um passo para o lado e me deixando entrar.
Assim que entrei no vestbulo, o cho em quadrados
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que pareciam de sorvete de chocolate e baunilha, parei e virei-me em crculos lentos, olhando para os enormes quadros a leo, que davam a impresso de terem sido 
trazidos de algum museu europeu. Olhei para o enorme lustre dourado por cima e a imensa tapearia na parede ao lado da escada semicircular, os degraus cobertos por 
um carpete grosso, de uma tonalidade branco-amarelada, parecendo macio como plo de coelho.
-  uma cena de Romeu ejulieta - disse Peter, acenando com a cabea para a tapearia. - O baile de mscaras. Ainda no leu, no ?
Sacudi a cabea.
- Mas aposto que conhece a histria?
- Um pouco.
- O que est achando at agora?
- No sei o que dizer. A casa  muito grande. Ele riu.
- Quase mil metros quadrados. Vamos continuar. Ao seu lado, contemplei a enorme sala de estar, com um piano de cauda branco.
- Nenhum de ns dois toca. E voc? Sacudi a cabea.
- Talvez devssemos providenciar um professor de piano. Voc gostaria?
- No sei.
E no sabia mesmo. Nunca tivera o desejo de tocar piano. E  claro que tambm nunca teria a oportunidade de aprender.
- Provavelmente h muitas coisas novas que voc vai descobrir que quer fazer - comentou Peter, pensativo. - Quando as coisas parecem impossveis, imagino que no 
pensa duas vezes nelas, no ?
Acenei com a cabea. Aquilo fazia sentido. Ele era esperto. Tinha de ser, para ganhar o dinheiro necessrio para ter todas aquelas coisas, pensei.
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Havia muitos outros quadros que pareciam caros, vasos e peas de cristal. Todos os mveis eram impecveis, os braos e pernas de madeira lustrados at faiscarem, 
os sofs e poltronas dando a impresso de que ningum jamais sentava neles.
- No passamos muito tempo aqui - comentou Peter, como se pudesse ler meus pensamentos. -  o que se poderia chamar de sala de exibio. Em geral ficamos na sala 
ntima, onde temos o aparelho de televiso. Talvez agora que voc est aqui possamos ter algum tempo de famlia, sentados e conversando.  uma boa sala para uma 
conversa, no acha?
Ele sorria ao fazer a pergunta.
- Faz-me pensar que devo sussurrar.  como uma sala de uma casa famosa ou algo parecido.
Peter riu ao meu comentrio.
- Adoro observar as expresses dos que visitam minha casa pela primeira vez, porque assim posso contempl-la como se nunca a tivesse visto antes.
Continuamos por um corredor, com espelhos em molduras douradas e cheias de arabescos, mesinhas com vasos contendo flores frescas, quadros onde quer que houvesse 
espao.
- H muitos quadros na casa - comentei, enquanto parava e admirava uma linda paisagem marinha.
- A arte  um bom investimento hoje em dia - disse Peter. - Voc desfruta a beleza, enquanto o valor aumenta.  melhor do que comprar ttulos de alguma empresa, 
no acha?
Dei de ombros. Era tudo como outra lngua para mim. Peter soltou uma risada.
- Pamela tem o mesmo nvel de interesse.  uma dessas mulheres que querem apenas que a mquina continue a produzir, mas no querem saber qualquer coisa sobre a mquina... 
o que  timo. Cuido dessa parte
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de nossas vidas, enquanto Pamela... ela  linda e me faz parecer bem. Entende o que estou querendo dizer? Ele piscou para mim. Mais uma vez, eu no tinha a menor 
idia do que Peter dizia. Por isso, limitei-me a sorrir.
- Pamela est convencida de que voc ser to linda quanto ela. E Pamela quase disputou o ttulo de Miss Amrica.
-  mesmo?
- Primeiro, ela foi rainha do baile de formatura, depois rainha do baile dos ex-alunos, em seguida Miss Alumnio, ou algo parecido. Foi Miss Baa de Chesapeake e 
finalista do concurso de Miss Delaware. Isso a levaria  disputa do ttulo de Miss Amrica. Mas perdeu para a filha de um rico proprietrio de cavalos de corrida. 
Imagino que houve algum acerto nos bastidores.
Paramos na sala de jantar. Era preciso ter criados para fazer uma refeio ali, pensei. A mesa oval de cerejeira escura parecia bastante grande para acomodar todas 
as crianas no orfanato, os administradores, cozinheiras, vigias e at alguns visitantes. Tinha uma dzia de lugares postos, com copos de vinho e mais talheres do 
que eu j vira em todo o refeitrio. Havia um armrio de portas de vidro num lado, com copos e pratos. Havia tambm mesas de servio, cadeiras de encosto alto, uma 
parede espelhada e dois lustres.
- O jantar e todas as refeies formais so servidos aqui - informou Peter, com um gesto largo da mo. - Pamela supervisiona tudo na casa. Seus pais a mandaram para 
uma escola de preparo social, o que algumas pessoas chamam de escola de elegncia. Ela sabe tudo o que h para saber sobre etiqueta. Vai aprender muito com Pamela. 
Juro que ela deveria ter nascido na realeza. Seria capaz de viver nesse mundo. Nossa sala ntima... ou sala da famlia, como alguns chamam.
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Ele parou na porta seguinte,  direita. Os mveis eram de couro preto, a televiso era to grande quanto as telas de alguns cinemas. As cortinas de veludo vermelho 
estavam abertas para deixar  mostra a piscina e a cabana. Toda uma parte da sala tinha as paredes devotadas a retratos de Pamela. No pude resistir  atrao.
- A est ela! - exclamou Peter. - Ganhando concursos de beleza, representando companhias, participando de paradas, encontrando-se com celebridades e polticos importantes, 
desfilando as criaes de grandes estilistas... e foi assim que a conheci.
Eu me sentia atordoada. Minha nova me conhecia mesmo todas aquelas pessoas famosas? Peter veio se postar ao meu lado.
- Impressionante, no ?
- , sim.
- Fui um afortunado quando ela se apaixonou por mim. Pamela  uma constante surpresa. Possui um tipo excepcional de beleza. Sabe o que a beleza pode fazer e no 
pode.
Ele acenou com a cabea para mim e prometeu:
- Vai aprender muitas informaes prticas para uma mulher atraente.
Pela maneira como Peter falava, parecia que Pamela e agora eu, o que no acreditava por um instante sequer, ramos cidads de um pas diferente, ou integrantes de 
uma espcie diferente, por causa de nossa aparncia.
- Ela pode ser inocente como uma criana quando  preciso, mas se torna perceptiva, sedutora, sofisticada e hbil quando tem de ser... e sabe distinguir o que uma 
determinada situao exige. Poucas mulheres que eu conheo fazem isso... e incluo as mais inteligentes e independentes que trabalham na minha firma.
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Ele concluiu com alguma amargura. Percebeu que estava muito srio, sorriu e acrescentou:
- Este  o mais moderno sistema de som, digital, com Surround Sound. Poucas pessoas tm um parecido, pois a tecnologia  muito nova. Uma sala confortvel, no acha?
Eu escutava apenas com meia ateno, uma parte de mim ainda estava impressionada com o luxo naquela casa espetacular. Peter continuou na escuurso, mos-trando-me 
os dois banheiros no primeiro andar, os aposentos dos criados, a cozinha, que parecia bastante grande para atender a um restaurante lotado, e a biblioteca, seu escritrio 
em casa, uma sala escura e esplndida, com centenas de livros encadernados em couro.
- Devo dizer que sou um pouco irracional em relao ao meu escritrio, Brooke. No permito que ningum entre aqui sem que eu esteja presente. H muitos documentos 
importantes e papis particulares.
Vi uma folha impressa saindo de uma mquina. Peter acrescentou:
- s vezes os documentos me so enviados por fax direto para c. E agora vamos subir para voc conhecer seu quarto.
Voltei com ele para a escada. Comeamos a subir. Ouvimos o que parecia ser pera vindo de trs de uma porta dupla fechada, no final do corredor.
- Pamela gosta de ouvir operetas quando est em seu boudoir. - Peter riu quando fiz uma careta. - E agora d uma olhada.
Paramos diante de uma porta alta. Ele me fitou com um brilho malicioso nos olhos antes de abri-la. Desta vez no fui capaz de reprimir meu suspiro de espanto.
O quarto, meu quarto, era quatro vezes maior do que o quarto em que dormia no orfanato. A cama era
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enorme, do tamanho de uma rede de acrobacia. Tinha quatro postes rosados, uma cabeceira com uma rosa de haste comprida gravada. Tinha uma escrivaninha branca no 
outro lado do quarto, um balco comprido com espelhos, uma cadeira na frente de uma mesa de maquilagem. Havia ali escovas, diversos tubos e potes de maquilagem, 
batons, um secador de cabelos e uma caixa de marfim cheia de travessas e fitas para os cabelos.
Todas as minhas roupas novas haviam sido guardadas na cmoda e no grande closet. Sobrava espao para mais, muito mais. No closet havia espelhos, at mesmo uma mesinha 
com uma cadeira.
Nos lados da cama havia janelas grandes, com cortinas listradas em branco e rosa. Tinha uma vista de campos; a distncia, podia avistar um lago.
Peter abriu um armrio na frente da cama para mostrar um pequeno aparelho de televiso. Depois, abriu a parte inferior do armrio, revelando o aparelho de som.
- Compraremos alguma msica para voc ouvir neste fim de semana. Pamela j planejou os prximos dias, incluindo compras em boa parte do tempo. - Ele ps as mos 
nos quadris. - E ento? Est feliz?
Sacudi a cabea. Feliz no era uma palavra bastante ampla. Dei uma volta, tocando nas coisas para ter certeza de que se encontravam mesmo ali, que no eram um sonho.
- Este  meu quarto? Peter riu.
- Claro. Por que no descansa um pouco, depois toma um banho de chuveiro e se veste para o jantar? Ser a primeira refeio que faremos juntos. Pamela preparou algo 
especial. Est decidida a mim-la. Diz que uma linda mulher tem de ser mimada. Deve ter razo. Afinal, quem pode negar que sempre a mimei?
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Houve uma batida na porta. Viramos para deparar com Joline parada ali.
- A sra. Thompson me mandou verificar se a srta. Brooke deseja que eu prepare seu banho agora.
Srta. Brooke? Era incrvel.
- Est vendo como Pamela sempre se antecipa a tudo? - disse Peter. - E ento?
- Ento o qu?
- Quer que Joline prepare seu banho agora?
- Como assim?
- Aprontar tudo para voc - explicou Peter.
Olhei para a banheira grande e redonda, no banheiro reluzente. O que podia ser to difcil em aprontar um banho?
- Posso fazer isso sozinha.
- Claro que pode, mas daqui por diante algum cuidar disso para voc.  o que Pamela quer. Deseja que voc seja igual a ela.
Alguma coisa se agitou dentro de mim, onde ficavam todos os meus sonhos e pensamentos secretos. Era como um pequeno sinal de alarme. Um alarme que no entendi.
Olhei para as minhas roupas novas, o relgio carssimo, todo o meu mundo novo, muito mais privilegiado e seguro do que o orfanato.
Que perigo poderia haver ali?
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2 - Fora com o antigo

Quando mandara Joline preparar meu banho, Pamela no se referia apenas a abrir a gua. Instrura-a tambm sobre a quantidade de sais e leos de banho que devia ser 
misturada na gua. Fiquei de lado, observando-a medir tudo com a preciso de uma qumica.
- O que  tudo isso? - perguntei.
- So as coisas que a sra. Thompson diz que mantero sua pele macia e sedosa, que a impediro de envelhecer.
- Envelhecer? No preciso me preocupar com isso por enquanto. Ainda nem completei treze anos.
Ela sorriu como se eu tivesse dito alguma tremenda estupidez, depois abriu a torneira. Arrumou a toalha, grande e felpuda, ajeitou o roupo e as chinelas, perguntando 
em seguida:
- Deseja mais alguma coisa?
- No.
Eu no podia imaginar qualquer outra coisa para pedir.
- Tenha um bom banho - murmurou Joline, antes de se retirar.
Tenha um bom banho? Olhei para a banheira. No
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orfanato, costumvamos tomar banhos de chuveiro rpidos. Afinal, sempre havia outras pessoas querendo usar o banheiro. O que eu deveria fazer num banho alm de me 
lavar e sair?
Tirei as roupas. Dobrei a camiseta e o jeans com todo cuidado, pus no balco ao lado das pias. Embora minhas roupas fossem velhas e surradas, sentia que deveria 
trat-las de uma maneira especial s porque estavam agora num banheiro digno de uma princesa. Tinha duas pias! Por que um banheiro precisava de duas pias? E o que 
era aquilo ao lado da latrina?
Os ladrilhos de mrmore eram frios sob os meus ps descalos. Fechei a torneira. A espuma subira to alto que ameaava escorrer pela beira da banheira. Ao entrar 
nela, me abaixei, cautelosa. No sei como conseguira, mas Joline preparara o banho na temperatura certa para mim, nem muito quente, nem muito frio. Era uma sensao 
das mais agradveis. Tive de rir ao ver meu reflexo nos espelhos em torno da banheira. L estava eu apenas com a cabea acima do mar de espuma.
Em vez de um pano para esfregar, tinha uma esponja, pendendo de uma prateleira. Passei-a pelas pernas e, em seguida, recostei-me para repousar a cabea na almofada 
macia na beira da banheira. A gua espumante parecia estalar ao meu redor.
Seria possvel que os contos de fadas se transformassem em realidade? Cinderela fora muito mais feliz do que eu me sentia naquele instante?
- A est voc, uma cena perfeita - disse Pamela, entrando no banheiro. Ela tinha os cabelos presos sob uma pequena toalha. Usava um roupo de seda vermelha comprido, 
com letras japonesas na frente. Tinha o que pareciam ser finas camadas de lama nas faces e na testa. - Como se sente?
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- Muito bem - respondi, fazendo um esforo para no fit-la.
- Estou vendo que Joline ps sais de banho demais, mas no tem problema. Nascemos para ser indulgentes, voc e eu. Suas indulgncias ficaram em suspenso por algum 
tempo, mas isso j passou - declarou ela, com a confiana de uma rainha. - Peter diz que voc gostou do seu novo lar.
-  um palcio. Pamela riu.
- Por que no? Somos uma dupla de princesas, no  mesmo? No quer experimentar os jatos?
- Jatos?
Ela se abaixou e apertou um boto na base da banheira. A gua comeou a circular de maneira vertiginosa, os jatos me atingindo as pernas e costas. Soltei um grito 
de satisfao. Pamela riu. As bolhas foram se tornando cada vez maiores, at que tive de empurr-las para o lado, a fim de ver Pamela parada ali. Ela tornou a apertar 
o boto, e os jatos cessaram.
- Direi a Joline que ela ps espuma demais, para que a quantidade seja certa amanh de noite.
- Amanh de noite?
Eu deveria tomar um banho assim todas as noites?
- Isso mesmo.  preciso limpar os poros de sua pele todos os dias e se livrar dos venenos. Esses gis e sais so escolhidos com todo cuidado - continuou Pamela, 
apontando para os potes que Joline usara. - Tenho um dos melhores dermatologistas do pas aconselhando-me sobre os cuidados com a pele. Voc no vai ter nenhuma 
dessas manchas horrveis que as adolescentes costumam exibir.
Ela falou com tanta veemncia que senti um aperto no corao. Uma pausa e ela arrematou:
- No minha filha, no a filha de Pamela Thompson.
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Ela afastou algumas bolhas e examinou meus cabelos.
- H muito trabalho para ser feito - comentou ela, enquanto seus dedos testavam as mechas. - Seus cabelos parecem palha, quando deveriam oferecer a sensao de seda. 
Tambm precisamos aumentar o volume. Eu lhe darei seu primeiro xampu.
Pamela foi at o balco para escolher um xampu.
- Comearemos por este. Molhe a cabea. Afundei at a cabea ficar debaixo d'gua. Tornei a subi-la para as mos,  espera, de Pamela. Ela despejou o xampu e comeou 
a esfregar. Senti as pontas de suas unhas compridas roarem no couro cabeludo. Chegou a doer em alguns momentos, mas no me queixei. Quando acabou, ela me disse 
para afundar de novo. Fiquei surpresa quando suas mos acompanharam e continuaram a massagear o couro cabeludo. Permaneci debaixo d'gua at que meus pulmes comearam 
a doer. Levantei a cabea ofegante.
Pamela abriu a ducha do chuveiro e me enxaguou a cabea. Depois, voltou ao balco para escolher um condicionador. Espalhou-o nos meus cabelos e disse-me para deixar 
assentar por algum tempo.
- Nunca antes passei tanto tempo lavando os cabelos - confessei.
Parecia muito trabalho, de qualquer forma; e no podia imaginar por que era importante que os cabelos tivessem a textura de seda em vez de palha. Mas no disse nada.
- Tem de fazer isso todos os dias, daqui por diante. Deve se esforar para no perder um nico dia, mesmo que esteja doente. Uma beleza como a sua nunca pode ser 
considerada um fato consumado, Brooke. J ouviu falar alguma vez de antitoxinas?
Balancei a cabea.
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- As toxinas a envelhecem, mas h antitoxinas para combat-las e nos impedir de envelhecer depressa demais. Tenciono nunca ter a aparncia da minha idade, mesmo 
que tenha de recorrer  cirurgia plstica. Sei o que est pensando - acrescentou ela, antes que eu dissesse qualquer coisa. - Pensa que j fiz uma cirurgia plstica, 
no ?
Balancei a cabea.
- De que outra forma eu poderia parecer uma adolescente, ou uma mulher que acaba de fazer vinte anos, certo?
- Nem mesmo sei o que a cirurgia plstica faz - admiti.
Mas Pamela no prestava ateno ao que eu dizia.
- A cirurgia plstica  o ltimo recurso artificial. Serve para as preguiosas. Se voc se mantm dentro de sua dieta, faz exerccios e cuida da pele como ns duas 
fazemos, no h razo para se submeter ao bisturi.
- Posso sair agora?
No queria interromp-la, mas a gua comeava a ficar fria.
- Como?
- J posso sair da banheira?
- Primeiro queremos enxaguar o condicionador. - Pamela tornou a pegar a ducha do chuveiro. - Daqui por diante, poder fazer isso pessoalmente. Se estiver cansada, 
pode pedir a Joline.
- Esta  a primeira vez em que algum lava meus cabelos, ao que consigo me lembrar. Mas imagino que faziam isso quando eu era beb.
- Voc  sempre um beb quando chega o momento de ser mimada, especialmente pelos homens. Nunca, mas nunca mesmo, deixe-os acreditarem que a tornaram feliz.
- Por que no?
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- Eles pensaro que j fizeram o suficiente. E nunca so capazes de fazer o suficiente. Esse  o nosso lema. Muito bem, pode sair.
Levantei-me no mesmo instante.
- Como eu pensei. Voc tem um corpo elegante, sem um nico grama de gordura infantil. - Pamela me deixou de p ali, nua, sem me entregar a toalha. - Mas  um pouco 
mais musculosa do que eu esperava. E no queremos um corpo to duro.
Ela beliscou o msculo de minha coxa, enquanto acrescentava:
- Os homens gostam que suas mulheres sejam macias como mulheres.
Pamela finalmente me entregou a toalha. Enrolei-a depressa no corpo, passei a me enxugar, enquanto ela me estudava. Olhou para as minhas roupas.
- Voc no usava suti, Brooke?
- No.
- Seus seios comeam a se formar. Nunca  cedo demais para uma mulher se preocupar com a flacidez. A primeira coisa que faremos amanh de manh ser lhe comprar 
mais roupas de baixo. Sente-se que vou enxugar e escovar seus cabelos.
- Obrigada.
Sentei com a toalha ainda enrolada no corpo. Pamela ligou o secador e passou a escova por meus cabelos.
-  bom ter algum para cuidar e desenvolver.  como se eu estivesse comeando tudo de novo. Claro que eu no poderia fazer com qualquer uma. S podia ser com uma 
jovem que prometesse. Estou surpresa com o tamanho de seus ombros. No sei por que nunca percebi que eram to largos.
- Meus ombros?
- Como fez para que se tornassem to... viris? No faz aqueles exerccios com pesos, no ?
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Sacudi a cabea. O que havia de errado com os meus ombros fortes?
- Suponho que  uma coisa que simplesmente aconteceu. Mas tenho certeza de que vai mudar, assim como seus hormnios. - Uma pausa e ela sussurrou em meu ouvido: - 
E sempre podemos ajud-los.
- Podemos fazer o qu?
- Fazer com que nossos hormnios femininos sejam mais eficientes. Tenho algumas plulas, suplementos nutricionais fornecidos por minha nutricionista. Eu lhe direi 
tudo a respeito. Ah, h tanta coisa para fazer! No  divertido? J reparou como seus cabelos melhoraram muito? Vamos, pode tocar.
Foi o que fiz. Os cabelos pareciam de fato mais macios. Acenei com a cabea.
- Vai se tornar uma competidora muito mais depressa do que imagina, Brooke.
- Competidora?
- Nos concursos de beleza. - Pamela riu. - Talvez eu a inscreva no concurso de Miss Adolescente de Nova York este ano... Boa idia, vou inscrev-la. E tenho certeza 
de que ganhar. Pense no que eles diro.
Ela deu um passo para trs. As manchetes surgiram diante de seus olhos, ajeitadas com movimentos da escova.
- Filha de Pamela Thompson eleita Miss Adolescente de Nova York!
Olhei para seu reflexo no espelho. Pamela ainda fantasiava alguma cena num palco de concurso de beleza. Meus olhos voltaram para a latrina.
- O que  aquilo? - perguntei.
- Como? - Pamela olhou. - Ah,  um bid. Quer dizer que no sabia o que  isso?
Balancei a cabea e ela acrescentou:
- Pobre coitada... Serve para nos manter limpas
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nas partes ntimas. Deve se lavar todos os dias. As mulheres no compreendem como podem... cheirar. Olhei para o bid, os olhos arregalados.
-  uma sensao agradvel. - Pamela riu. - Os homens querem que essa seja a parte mais saudvel de nossos corpos. Mas aposto que voc j sabia de tudo isso, no 
?
- No, no sabia.
- No mesmo? - Ela ficou aturdida. - Ainda  virgem?
- Sou, sim - murmurei, espantada por ela perguntar.
- Que idia maravilhosa, ser virgem at ganhar seu primeiro grande concurso. Adorei. Deve me prometer que no vai se entregar a qualquer garoto, Brooke. O sexo  
seu tesouro. Deve proteg-lo como o drago que defende os potes de ouro em sua caverna, entende?  para isso que servem as mes. E eu sou uma me.
Ela se contemplou no espelho.
- Quem, em seu juzo perfeito, olharia para mim e pensaria, sequer por um momento, que tenho idade para isso?
Pamela riu de novo e voltou a olhar para as minhas roupas.
- Temos de nos livrar dessas coisas. Lamento que voc as tenha trazido para c.
- Do que est falando?
Ela pegou minha camiseta e o jeans como se estivessem infectados.
- Ainda tm o mau cheiro daquele lugar horrvel. De qualquer maneira, detesto jeans numa garota.
Pamela abriu uma gaveta e tirou uma tesoura. Antes que eu pudesse protestar, cortou o fundilho da cala. Depois largou-a no cho, junto com a camisa.
- Deixe a para Joline recolher e jogar no lixo.
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Ela lavou as mos como se tivesse manuseado roupas contaminadas, depois sorriu para meu rosto chocado.
- Temos de escolher agora a roupa que voc usar no jantar. Queremos parecer bonitas juntas quando entrarmos na sala e Peter levantar os olhos da mesa. Queremos 
deix-lo impressionado. Daqui por diante, cada vez que entrarmos numa sala juntas cativaremos quem estiver l. Fomos postas neste mundo para fazer isso.
Antes de segui-la para o meu quarto, fui at o jeans e peguei a fita para os cabelos, agradecida ao constatar que no fora cortada ao meio. Enquanto Pamela examinava 
todas as minhas novas roupas, guardei a fita numa gaveta da cmoda. Tinha medo de que ela pudesse querer jog-la fora tambm.
- No, no, no, talvez, sim - murmurou ela, tirando o vestido azul do cabide. - Experimente isto.
Ela me entregou o vestido e recuou. Por que tinha de me ver experiment-lo de novo? Afinal, j me vira com o vestido na loja. Sabia como parecia.
- No acha que deve vestir a calcinha primeiro? - indagou Pamela, quando larguei a toalha e fiz meno de pr o vestido.
Acenei com a cabea e fui pegar uma calcinha na gaveta da cmoda. Depois de p-la, enfiei o vestido pela cabea e puxei-o para baixo. Ajustava-se com perfeio. 
Tinha alas largas e uma gola em forma de U. Virei-me para fit-la. Pamela fez uma careta.
- No sei por que no notei antes, mas seus ombros e braos so to...
- O qu?
- Viris. Terei de conversar com meu mdico a respeito. Deve haver algum meio de atenuar isso. Pode entender agora por que as roupas so como coisas vivas?
Balancei a cabea.
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- As roupas assumem personalidades diferentes em ambientes diferentes. Na loja de departamentos, sob aquelas luzes fortes, as cores pareciam desbotadas, a impresso 
que se tinha era uma. Aqui, num cenrio mais aconchegante, num quarto ou numa sala de jantar, elas se tornam diferentes. Eu no teria comprado esse vestido se o 
visse aqui. Daqui por diante, mandarei trazer as roupas para voc experimentar em casa.
- Trazer para c? Para eu experimentar no meu quarto?
- Claro. Fizemos essas primeiras compras s pressas. Mas... - Pamela recuperou-se com um sorriso. - ...no h mal nenhum. Compraremos mais roupas. Isso  tudo. Tambm 
tenho um vestido azul para usar. Qual  a sua experincia com maquilagem?
- J passei batom algumas vezes.
- Batom? - Ela riu. - Sente-se  mesa de maquilagem. Vamos, depressa. Ainda tenho de arrumar meus cabelos e me maquilar.
Por que tnhamos de nos vestir com tanta elegncia para o jantar? Haveria outras pessoas presentes? Seria como uma festa?
Sentei-me, e Pamela se aproximou por trs. Virou o espelho de aumento e a luz dissipou as sombras em meu rosto. Depois, comprimiu as palmas contra as minhas faces, 
virou meu rosto de um lado para o outro, estudando-o. Acenou com a cabea.
- Agora que a vejo sob a luz, percebo onde temos de fazer seu nariz parecer menor. Quero realar seus olhos e engrossar um pouco os lbios.
Ela comeou a trabalhar como se me preparasse para um baile. A surpresa em meu rosto era fcil de constatar. Nunca fora muito boa em disfarar meus sentimentos. 
Sempre que achava que alguma coisa era uma idiotice, os cantos da boca se contraam num sorriso
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que me denunciava. Uma das professoras na escola primria, a sra. Carden, dissera-me certa ocasio que meu rosto era como um quadro-negro, em que os pensamentos 
surgiam em letras brancas e claras.
- Cada vez que sair deste quarto, Brooke, ainda mais quando tiver de sair de casa, lembre-se de que est no palco. Uma mulher, uma mulher de verdade, est sempre 
representando. Cada homem que olha para voc  sua audincia. Quer gostemos ou no, somos atraentes, o que significa que os olhos dos homens so como pequenos refletores 
sempre focalizados em nossos rostos e corpos.
Pamela sorriu e acrescentou:
- E mesmo que esteja casada h sculos ou com um namorado firme h meses, ainda precisa surpreend-lo com sua elegncia e beleza cada vez que ele a contemplar, entende?
- Por qu?
- Por qu? - Ela parou de trabalhar e ps as mos nos quadris. - Por qu? Porque se no fizermos isso, eles podero olhar para outro lado... e porque queremos ser 
sempre o centro de suas atenes.
Pamela recomeou a me maquilar, enquanto continuava a falar:
- Espere at estar l fora, competindo. Vai ver como pode ser terrvel.  um mundo brutal e implacvel quando chega o momento de conquistar as afeies dos homens. 
Cada mulher, quer queira ou no admitir, est competindo com todas as outras mulheres. Quando entro numa sala, quem voc pensa que me olha primeiro? Os homens? No. 
Suas esposas me olham e tremem.
Uma pausa e ela concluiu:
- Tenho o pressentimento de que a encontrei bem a tempo. Ainda  bastante jovem para desenvolver bons hbitos. Comprima os lbios um contra o outro. Est bom assim. 
E agora vamos ver o resultado.
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Pamela virou minha cabea para o espelho e tornou a se postar atrs de mim. Suas mos me ajeitaram para que pudesse ver meu perfil.
- Percebe a diferena? Entrou aqui uma criana, mas agora parece uma moa.  o que farei com voc.
Eu me contemplava no espelho, aturdida. Com o delineador dos olhos, o ruge, o batom, parecia muito diferente, mas no tinha certeza se gostava. Sentia-me ridcula. 
Mas tinha medo de fazer qualquer comentrio, um pavor intenso de que o quadro-negro no rosto revelasse minha desaprovao. Se isso aconteceu, Pamela no percebeu, 
talvez porque tivesse coberto o quadronegro com maquilagem.
- No pense que tem de passar muito tempo ao sol para ter essa tonalidade de pele, Brooke. A luz do sol  devastadora. Os terrveis raios ultravioletas nos envelhecem. 
De qualquer forma, no precisamos pegar sol com essa maquilagem. Agora voc est pronta. Venha para o meu quarto. Ficaremos conversando enquanto me visto.
Levantei-me e segui-a.
- Espere um pouco! - Pamela falou com uma rispidez que eu no ouvira antes. - No planejava andar por a descala, no ?
A maneira como ela disse descala fez com que parecesse um pecado.
- Como? Ahn...
Baixei os olhos, constrangida.
- Ponha os sapatos que combinam com o vestido. Fui at o closet e olhei para as dezenas de pares que ela me comprara.
- O segundo par da direita - disse Pamela, impaciente. - Tem muito para aprender. Ainda bem que eu apareci em sua vida.
Pus os sapatos e segui-a. Lancei um olhar para o
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banheiro, vendo a camiseta e o jeans rasgado no cho, onde ela os jogara. Era como me despedir de uma velha amiga. Naquelas roupas caras, os cabelos arrumados, toda 
maquilada, eu tinha a sensao de que trara algum. A mim mesma?
- Vamos logo - pressionou Pamela, quando hesitei. - Peter j est esperando l embaixo. Claro que devemos sempre manter os homens esperando.  uma regra fundamental. 
Nunca chegue na hora... e nunca, mas nunca mesmo, antes da hora marcada. Quanto mais fazemos os homens esperar, mais suas expectativas aumentam... e maiores so 
os aplausos em seus olhos. Agora, vamos andando. Preciso de tempo para me fazer mais bonita tambm.
Segui apressada em seu encalo. Quando ela abriu a porta dupla do quarto principal, senti que a respirao era expelida abruptamente dos pulmes e ficava presa na 
garganta, como uma enorme bolha de sabo. No era um quarto; era uma autntica casa  parte!
Havia um patamar comprido, acarpetado, levando a dois degraus.  direita havia uma sala de estar, com vrios mveis e um aparelho de televiso.  esquerda, um quarto 
que era sem dvida digno de uma rainha. Era redondo e tinha uma lareira de mrmore branco, mas o que mais me espantou foi a cama, porque tambm era redonda, com 
almofadas enormes e fofas. O teto por cima era de espelhos. Havia espelhos por toda parte. Fiquei boquiaberta.
Pamela reparou em meu espanto e soltou uma risada.
- Talvez agora voc compreenda o que eu quis dizer quando falei que estvamos sempre no palco, sempre representando, Brooke. - Ela olhou para a cama e depois para 
o teto. - Sabe qual  a sensao?
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A voz era mais suave agora, mas ainda transbordava de paixo. Sacudi a cabea.
-  como estar em seu prprio filme. E quer saber de outra coisa?
Esperei, com medo de respirar.
- Somos sempre as estrelas - arrematou Pamela, rindo.
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O mundo inteiro  um palco
Pamela me fez sentar ao seu lado, em sua mesa de maquilagem. Fora projetada para que os espelhos no ficassem apenas na sua frente. Seguiam a curva da parede e cercavam-na. 
Ela podia olhar para a esquerda ou direita e ver seu perfil, sem mexer a cabea. Comentou que era importante saber como parecia por todos os ngulos, todos os lados, 
especialmente por trs.
- Quando eles descobrem como sou fabulosa por trs - explicou ela -, ficam morrendo de vontade de ver meu rosto.
Pamela me falava pelo espelho, em vez de me fitar diretamente. Era como se estivssemos olhando uma para a outra atravs de janelas.
- Sempre me chame de Pamela, Brooke.  maravilhoso ter uma filha, e quero ser conhecida como sua me. Mas prefiro que as pessoas pensem que parecemos mais como irms. 
No concorda?
Acenei com a cabea, embora no tivesse certeza. Tinha amigas no orfanato, garotas que eram to parecidas comigo que poderamos passar por irms. Partilhvamos roupas, 
fazamos os deveres da escola juntas, s vezes conversvamos sobre os meninos e outras garotas
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na escola, que costumavam nos esnobar porque ramos do orfanato. Batalhvamos juntas, soframos juntas. Pela primeira vez, pensei na vida que deixara para trs e 
como sentiria saudade.
Mas o que eu nunca tivera era uma mulher mais velha, maternal, a quem poderia recorrer, no com queixas, mas com perguntas, as perguntas mais ntimas, as perguntas 
que no me sentia  vontade para fazer a conselheiras ou professoras. No ser capaz de ter algum assim me fazia sentir ainda mais sozinha, ouvindo os ecos dos meus 
prprios pensamentos.
- Essas mulheres que tm filho cedo logo se tornam matronas, mesmo quando mal saram da casa dos vinte anos.  tudo uma questo de atitude... e as atitudes so muito 
importantes, Brooke. Tero um efeito direto em sua aparncia. Se voc pensa em si mesma como mais velha, vai parecer mais velha. Penso em mim mesma como me tornando 
ainda mais bela, mal comeando a desabrochar.
Pamela sorriu para sua imagem no espelho, depois me fitou.
- No quero que voc pense que eu no queria ter filhos. S que no podia t-los enquanto participava de concursos e trabalhava como modelo. Ter filhos muda o nosso 
corpo. Agora... - Ela fez uma pausa, sorrindo. - ...ainda tenho meu corpo e tambm tenho uma filha.
Ela limpou a fina camada de lama marrom do rosto com uma esponja mida, com o maior cuidado. Observou-se atentamente por um momento. Inclinou-se para o espelho. 
O indicador direito subiu para o alto da face esquerda, como se tivesse acabado de ser picada por um mosquito. Ela tocou em sua pele e virou-se para mim.
- Est vendo uma pequena vermelhido aqui? - indagou ela, apontando o local.
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Olhei bem.
- No.
Pamela voltou ao espelho, estudou-se de novo, depois balanou a cabea.
- No  uma coisa que um olho destreinado possa perceber, mas h um ponto ressequido aqui. Cada vez que saio, volto para casa com alguma coisa negativa.
Ela correu os olhos pelas fileiras de potes com cremes e loes para a pele. Os olhos tornaram-se um pouco frenticos quando pegou um pote e descobriu que estava 
vazio.
- Mas que garota insuportvel! Eu disse a ela para manter esta mesa sempre estocada, para verificar todos os dias e substituir qualquer coisa que estivesse vazia 
ou quase vazia!
Pamela levantou-se. Foi at o closet  sua direita e abriu a porta. Quando deu um passo para o lado, vi que havia prateleiras e mais prateleiras com cosmticos. 
Parecia at que Pamela tinha sua loja particular. Tirou um pote de uma prateleira e voltou  mesa de maquilagem.
- Isto tem ingredientes herbceos. Serve para reabastecer os leos naturais do corpo.
Enfiou os dedos no pote, espalhou sobre o rosto a substncia branca, parecendo cola, esfregou gentilmente contra a pele. Depois, limpou o resduo e tornou a se examinar.
- Pronto! - Pamela virou-se para mim. - Percebe a diferena?
No vi qualquer mudana, mas acenei com a cabea assim mesmo.
- A pele  muito sensvel s mudanas atmosfricas, diz meu dermatologista. Fazia muito calor naquele orfanato, por exemplo. Depois fomos para a loja de departamentos 
com seu ar-condicionado central. O prblema
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 que os filtros do sistema no funcionam direito. H partculas flutuando no ar. Grudam na pele e comeam a romper a textura. Pamela fez uma pausa.
- A gua nesta casa  especialmente filtrada. Os minerais mais prejudiciais so removidos. Assim, voc no precisa se preocupar com seus banhos de banheira e chuveiro.
Nunca antes me ocorrera ter qualquer preocupao com um simples banho.
- Tudo aqui  filtrado e bem filtrado, como o sistema de ar-condicionado e a calefao. As casas das outras pessoas tm poeira demais. s vezes sinto vontade de 
usar uma mscara cirrgica quando sou convidada para ir  casa de algum, mesmo quando se trata de algum dos clientes mais ricos de Peter. Eles no sabem de nada... 
ou no se importam com os cuidados mnimos de beleza.
Pamela suspirou ao comear a escovar os cabelos.
- Estas pontas comeam a quebrar de novo. Eu disse ao meu cabeleireiro que ele no est aparando direito. Droga!
Ela ficou imvel por um instante.
- Est vendo isto? - Pamela apontou para seu rosto. - Sempre que fico transtornada, esta ruga persistente aparece sob meu olho direito. Percebe aqui?
Havia uma prega mnima em sua pele, mas eu nunca diria que se tratava de uma ruga.
Pamela respirou fundo, fechou os olhos, permaneceu sentada em silncio por um longo momento. Esperei at que ela tornasse a abrir os olhos.
- Ansiedade, irritao, preocupao e estresse aceleram o processo de envelhecimento. Meu instrutor de meditao me ensinou a evitar tudo isso. Devo
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entoar um mantra e dizer a mim mesma que no ficarei transtornada. Mas s vezes  muito difcil. Ela me fitou atentamente.
- No deve contrair os olhos desse jeito, Brooke. V como sua testa fica enrugada? Nunca  cedo demais para pensar a respeito. Precisa usar culos?
- Acho que no.
- No se preocupe se precisar. Providenciaremos as melhores lentes de contato. Peter usa lentes de contato.
-  mesmo?
-  um homem bonito, seu novo pai, no acha? - perguntou ela, com um sorriso orgulhoso. - No casei apenas por dinheiro e posio. Casei com um homem bonito.
- Ele  mesmo bonito.
- E  um bom amante tambm. Um amante atencioso. Nunca sequer pensa em me beijar antes de se barbear. A barba de um homem pode causar uma devastao em sua pele. 
Se um homem for egosta, se s se importar com sua prpria satisfao sexual, voc vai se sentir usada. No perteno a ningum. No sou um brinquedo de ningum.
Pamela falou com veemncia, como se algum tivesse acabado de acus-la de ser assim. Sempre que a raiva se estampava em seu rosto, as narinas se dilatavam, os olhos 
davam a impresso de que as chamas de pequenas velas brilhavam por trs. Ela fez uma pausa e tornou a me fitar com intensidade.
- O quanto voc sabe sobre sexo? Sei que  virgem. Foi o que me disse, e acredito em voc. Espero que nunca venhamos a mentir uma para a outra. Mas j chegou perto 
de perder a virgindade? Teve algum namorado firme?
Ela disparava as perguntas como se fossem tiros de espingarda.
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- Nunca tive um namorado.
A incredulidade dominou o rosto de Pamela.
- Pelo que vi, os quartos no orfanato eram bem prximos. Rapazes e moas partilhavam vrias coisas... e no havia muita superviso, no ? Portanto, devia haver 
muitas oportunidades para sacanagens. Pode ser franca comigo, Brooke. Sou sua me agora. Ou sua mentora, se preferir.
- Juro que nunca tive um namorado.
- Mas sabe das coisas, no ? Sabe o que os homens querem, o que sempre querem, no importa como se apresentem ou o que prometam. Os homens s vem voc como uma 
coisa e uma coisa apenas, quer seja uma rainha do baile de formatura ou integre o Supremo Tribunal Federal, Brooke. Sabe o que ?
Balancei a cabea.
- Um recipiente para o prazer em que podem mergulhar.
Pamela voltou a se maquilar.
- Satisfazendo suas pequenas lunetas - murmurou ela.
- Suas o qu? Ela riu.
- Lunetas. - Virou a cabea para me fitar. - No me diga que nunca viu nenhuma.
- Claro que j vi - respondi, recordando as diferentes ocasies em que vira um dos meninos no banheiro.
- Ento sabe que eles se projetam como uma luneta quando ficam excitados. Pelo menos  assim que sempre penso neles. - Pamela riu de novo. - Ah, no vai ser divertido 
para mim experimentar tudo de novo por seu intermdio?
Ela voltou a ficar sria e acrescentou:
- Por isso  to importante que voc faa tudo o que eu disser e se beneficie do meu conhecimento.
46especialmente em matria de homens. Afinal, o que mais pode ter a mesma importncia?
Pamela deu de ombros. Correu os olhos pelo quarto enorme e suntuoso.
- Nunca se esquea que foi meu conhecimento que conseguiu tudo isso. - Ela virou-se para mim e acrescentou, com tanta intensidade nos olhos que at me assustou: 
- E com a minha ajuda, voc tambm vai conseguir tudo o que quer.
Peter estava sentado em silncio na sala de jantar,  nossa espera. No instante em que passamos pela porta, ele se levantou, radiante de felicidade.
- Voc pode mesmo fazer maravilhas, Pamela! - exclamou ele. - Olhe s para ela!  sem dvida uma verso mais jovem de voc.
A expresso de satisfao de Pamela se tornou instantaneamente gelada.
- No to mais jovem, Peter.
- No, no, claro que no. Acontece apenas que ela entrou na casa como uma menina, e voc a transformou em uma jovem dama numa questo de horas.
Ele puxou a cadeira para Pamela, que se sentou. Fez a mesma coisa para mim. Sentei na frente de Pamela,  esquerda de Peter, enquanto ela ficava  direita. Ainda 
restava tanto espao  mesa que me senti contrafeita.
- Tenho muita coisa para ensinar a Brooke - declarou Pamela.
- Foi o que eu disse a ela, ressaltando que no havia mulher melhor para a funo. No  mesmo, Brooke?
Acenei com a cabea. Pamela se acalmou. Relaxou e sorriu. Uma msica suave parecia sair das paredes. Sacket entrou, com uma garrafa de champanhe num balde com gelo, 
que ps ao lado de Peter.
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- J tomou champanhe alguma vez antes, Brooke? - perguntou Peter.
- No - respondi. - Tomei um gole de cerveja uma vez.
Ele riu.
Pamela contraiu os lbios num pequeno sorriso. Dava a impresso de que era capaz de controlar cada movimento em seu rosto, por menor que fosse, cada feio se movendo 
independente das outras.
Peter acenou com a cabea para Sacket, que serviu em meu copo a mesma quantidade de champanhe que ps nos copos de Peter e Pamela. Depois, ele reps a garrafa no 
balde e se retirou. Peter levantou seu copo, devagar.
- Vamos fazer um brinde, Pamela?
- Claro.
-  nossa nova filha,  nossa nova famlia... e s lindas mulheres em minha vida.
Todos tocamos o copo. Eu s vira a cena em filmes, e por isso fiquei emocionada. Tomei um gole de champanhe um pouco depressa demais. Comecei a tossir.
- Tomou demais - disse Pamela. - Apenas deixe que os lbios encostem no lquido. S permita que uma quantidade mnima entre na boca. Tudo o que fizer daqui por diante 
deve ser feminino... e para ser feminina voc deve ser delicada e graciosa.
Amassei o guardanapo com a mo e limpei a boca.
- No, no, no! - gritou Pamela. - Encoste o guardanapo de leve, Brooke. Isto no  uma carrocinha de cachorro-quente; e mesmo que fosse, voc no faria isso.  
vulgar demais, muito viril.
Ela sacudiu a cabea para se livrar do sentimento.
- Faa de novo, Brooke. At acertar. Assim est bom. - O comentrio veio quando repeti o ato to de
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leve que o guardanapo mal tocou nos lbios. - Perfeito. Est vendo, Peter?
- Claro. Ela vem se saindo muito bem. Gostou do champanhe, Brooke?
Dei de ombros.
- Pensei que era mais doce.
- No  uma Coca-Cola - interveio Pamela. - Alm do mais, o acar  terrvel para a sua pele. Ver que no temos chocolate em casa. As sobremesas, quando as temos, 
so sempre de gourmet. Normalmente tomamos o maior cuidado com as calorias. Mas como esta noite  especial, teremos certas indulgncias.
Joline entrou com a salada. Observei Pamela para ver que garfo usar, porque havia trs. Peter reparou como eu estudava cada movimento deles e sorriu.
- Cada momento de sua vida nesta casa ser uma experincia de aprendizado - prometeu ele. - Basta seguir as instrues de Pamela, e garanto que far tudo certo.
A salada foi seguida por um prato de lagosta. Sacket trouxe o vinho, que tambm tive permisso para tomar. Tudo estava delicioso. A sobremesa foi uma coisa chamada 
creme brle. Eu nunca ouvira sequer falar, muito menos provara, mas era maravilhosa. Como todo o resto.
Depois, fomos para a sala ntima, a fim de conversar. Mas Pamela se mostrava irrequieta. Pediu licena e subiu. Pensei que devia haver alguma coisa errada. Quando 
Peter foi chamado ao telefone, resolvi ir v-la. Subi a escada apressada e bati em sua porta. Ela no respondeu. Ouvi um som que parecia ser de algum vomitando. 
Abri a porta e espiei.
- Pamela? - chamei. - Voc est bem?
Os sons de vmito se tornaram ainda mais altos, mas depois cessaram abruptamente. Ouvi gua correndo.
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No instante seguinte, ela saiu do banheiro. Tinha o rosto vermelho.
- Voc est bem?
- Qual  o problema, Brooke?
- Tive a impresso de ouvir algum vomitando.
- Estou bem. Foi Peter quem a mandou?
- No.
- Estou bem - repetiu ela. - Desa agora e continue a aproveitar a noite. Descerei num instante. V logo.
Sa do quarto, fechando a porta sem fazer barulho.
Se ela estava passando mal, por que se sentia envergonhada? No dava para entender.
Minutos depois ela se juntou a Peter e a mim. Parecia to perfeita quanto no momento em que descera para jantar. No passara mal, com toda certeza, pelo menos no 
como as pessoas que eu j vira passando mal. Peter tambm no notava nada errado.
Peter me fez muitas perguntas sobre minha vida no orfanato. Pamela mostrou-se mais interessada pelo que eu lembrava de minha me.
- No sei de nada. Tudo que tenho para lembr-la  uma fita rosa desbotada que estava em meus cabelos quando me deixaram no orfanato.
- Ainda tem essa fita? Onde? No a vi quando veio para c.
Pamela lanou um olhar apreensivo para Peter.
- Estava no bolso do meu jeans. Guardei na gaveta da cmoda.
- Por que quis guardar uma coisa assim?
- No sei - respondi, quase em lgrimas.
- No  nada demais, Pamela - interveio Peter, dando de ombros. - Apenas uma lembrana.
Mas ela parecia infeliz com o fato. Recostou-se na cadeira lentamente.
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- H uma poro de histrias de horror sobre famlias que adotam uma criana - murmurou Pamela. - Anos depois, a me biolgica, uma mulher que nada teve a ver com 
a criao da criana, aparece e reivindica seus direitos.
- Isso no vai acontecer conosco - assegurou Peter. - Ela nem se lembra do rosto da me. No  mesmo, Brooke?
- , sim.
- No deveria guardar coisa alguma, nem sequer uma fita - declarou Pamela, furiosa. - A mulher se livrou de voc como... como se fosse um filhote de cachorro indesejvel.
- Est deixando-a perturbada, Pamela - protestou Peter, gentilmente.
Ela me fitou e tornou a relaxar.
- S estou preocupada com voc, Brooke. Quero que seja feliz conosco.
Tentei sorrir. O dia inteiro fora sufocante, repleto de surpresas e emoes, a tal ponto que eu mal conseguia manter os olhos abertos agora. Peter riu e sugeriu 
que eu fosse me deitar, para uma boa noite de sono.
- E  apenas o comeo, Brooke - comentou ele. - Apenas um gostinho de tudo que vai conhecer.
- Subirei com voc para ensinar a maneira certa de tirar a maquilagem - disse Pamela. - Tambm quero lhe dar uma coisa para passar no rosto.
Passar no rosto? - repeti, confusa. - Para que, se vou dormir agora?
-  quando seu corpo tem melhores condies de se recuperar, Brooke. - Vai querer acordar com uma aparncia linda, no  mesmo?
Peter soltou uma risada.
- Escute sempre o que Pamela diz, Brooke. J deve ter percebido que ela sabe o que fala.
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Pr maquilagem todos os dias, lavar com sabonetes vegetais, filtrar o ar, comer uma dieta especial, evitar aborrecimentos, entoar mantras, passar alguma coisa no 
rosto para dormir. Parecia muito esforo. Se era tudo isso que eu tinha de fazer para ser bonita, pensei, preferia ser feia como antes.
Mas nunca diria isso, no se quisesse que Pamela me amasse como filha... ou mesmo como uma irm.
Era algo de que tinha certeza, mas no sabia que tudo o que eu sabia no era suficiente. Nem de longe.
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4 - Segredos

Durante os dias seguintes, Pamela assumiu o comando da minha vida, como se eu no tivesse nada mais a dizer a respeito. Decidia minha agenda para quase todos os 
momentos do dia, no deixava nada ao acaso. O plano era me matricular na Escola Feminina Agnes Fodor, uma escola particular apenas para os que nasciam em bero de 
ouro. Mas antes que eu fosse levada  escola para ser matriculada, Pamela queria que eu aprendesse o suficiente sobre postura, etiqueta e elegncia "para enganar 
aquelas garotas de sangue azul".
- As garotas de sangue azul so aquelas que nascem na riqueza - explicou ela -, cujas famlias remontam s pessoas mais respeitveis e importantes em nossa histria 
social e poltica. Aprendem desde o dia em que nascem a se comportar e conduzir na sociedade.  assim que quero que voc parea.
- Mas no sou uma garota de sangue azul - ressaltei.
- , agora. Peter e eu pertencemos s melhores famlias. Voc ter nosso nome. Mais importante ainda, quando algum olhar para voc, estar olhando para mim. Entende?
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Acenei com a cabea, mas no gostei. No me agradava virar de repente uma garota de sangue azul. Precisava de mais tempo para me acostumar a ter criados minha disposio, 
mais tempo para me orientar numa casa que mais parecia um palcio. No gostava que Joline preparasse meu banho todas as noites, aprontasse minha camisola e chinelas. 
Sentia-me como uma invlida. Pamela determinava que cores eu vestiria, como devia escovar os cabelos. Quando falei que nunca usara esmalte nas unhas, ela me fitou 
como se eu fosse uma criatura de outro mundo.
- Nunca? No posso acreditar.
Quando ri da idia de pintar as unhas dos ps, ela ficou zangada.
- No tem nada de engraado, Brooke.  to srio quanto cuidar de qualquer outra parte do seu corpo.
- Mas quem ver minhas unhas dos ps?
- No  importante quem mais poder ver. Voc tem de compreender isso. Somos belas para ns mesmas, para nos sentirmos especiais... e quando nos sentimos especiais, 
os outros passam tambm a nos ver e considerar como especiais.
- No compreendo por que seramos to especiais.
- Suas roupas, penteado, maquilagem, postura e sorriso, tudo deve estar coordenado, funcionar como um conjunto. As mulheres como ns so autnticas. obras de arte, 
Brooke.  o que nos torna especiais. Compreende agora?
Eu no compreendia, mas sabia que ela ficaria furiosa se no desse a impresso de que entendera tudo.
A nica vez que ela brigou comigo ocorreu trs dias depois da minha chegada. Perguntei se podia ligar para algum no orfanato. Queria falar com Brenda Francis, minha 
nica amiga l. Sabia que ela sentia a minha falta. Eu era praticamente a nica pessoa com quem ela
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falava. Por isso, queria saber como ela estava. Partira to depressa que nem tivramos tempo de nos despedirmos.
- Absolutamente no! - disse Pamela, categrica. - Deve tirar de sua memria para sempre aquele lugar e todas as pessoas que conheceu l!
Uma pausa e ela acrescentou:
- Muito em breve voc vai esquecer por completo que j foi uma rf.
Ela rangeu os dentes e fez uma careta, como se pronunciar a palavra rf enchesse sua boca de leo de rcino.
No fundo do corao, eu tinha uma grande preocupao: se minha nova me achava os rfos to repulsivos, como poderia algum dia me amar? Talvez ela tambm se preocupasse 
com isso, sendo o motivo pelo qual se mostrava to empenhada em me transformar numa nova pessoa, o mais depressa possvel. Para o bem de ns duas, pensei que deveria 
tentar com todo afinco.
A primeira coisa que fizemos, depois que Pamela me instruiu sobre a maquilagem da manh, foi ir ao shopping e comprar mais roupas para mim. No departamento de lingerie, 
ela escolheu um suti com enchimento. Senti-me ridcula ao experiment-lo, e ainda mais quando contemplei os contornos exagerados no espelho. Parecia anos mais velha 
apenas por essa mudana simples. Queixei-me que no mais parecia como era de fato.
-  exatamente o que quero para voc. Conheo os juizes de concursos. Quando voc participa de um concurso de Miss Adolescente isso ou aquilo e parece mais velha, 
todos ficam impressionados, os homens em particular.
Ainda me sentia surpresa por ela realmente acreditar que eu poderia participar de um concurso de beleza. O que Pamela via em meu rosto que eu no conseguia
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perceber? Que ningum mais percebia? Julgava-me desgraciosa, mesmo com a aparncia de seios maiores. Os movimentos com aquele suti me lembravam o uso de uma couraa. 
Sentia-me corpulenta e tinha a sensao de que todos me olhavam, porque o peito no combinava com o resto do corpo.
Antes de deixarmos a loja, ela me comprou mais meia dzia de conjuntos de saia e blusa, trs pares de sapatos para combinar com os conjuntos, um colar, trs pares 
de brincos e um lindo anel de ouro e pequenos diamantes. Tambm marcou hora para que meus cabelos fossem aparados e penteados por seu cabeleireiro, no dia anterior 
 minha ida  escola para ser matriculada.
Ao voltarmos para casa, minhas aulas de etiqueta comearam, embora Pamela me dissesse que cada momento em sua companhia seria como cursar uma escola de elegncia. 
Ela tinha razo nesse ponto.
Na limusine, ela me instruiu sobre a maneira correta de sentar. Demonstrou sua postura, a maneira como mantinha a cabea erguida, como juntava as pernas, ou as cruzava 
da maneira apropriada.
- Vamos encontrar muitas pessoas diferentes ao longo dos prximos dias, Brooke. Sempre que eu apresent-la a algum, no diga "Oi". Sei que os jovens hoje em dia 
sempre usam essa expresso, mas voc quer parecer refinada. Sempre responda com "Prazer em conhec-lo". E sempre olhe para as pessoas, faa um contato visual. Assim 
a pessoa sentir que voc lhe dispensa toda a ateno possvel, em vez de olhar por cima de seu ombro para algum homem deslumbrante. Tambm pode apertar a mo das 
pessoas.  apropriado. Mas ser apresentada a alguns dos nossos conhecidos europeus. Eles tm o hbito de beijar o rosto. Por enquanto, siga o meu exemplo. Se o 
fizer, sair tudo certo. Primeiro, aproxime a face direita da face direita da pessoa
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que est cumprimentando. Depois, recue um poucco a cabea, e repita o gesto com a face esquerda. A maiooria prefere se limitar ao que  chamado de beijo no ar.
- Beijo no ar?
- Isso mesmo. Voc no chega a encostar os lbbios no rosto da pessoa. Beija o ar, estalando os lbios bastante alto para parecer um beijo de verdade. - Pamela sorriu 
e prometeu: - Vai pegar o jeito num instante.
Tudo aquilo me parecia absurdo. Lembrava-me de algumas regras inventadas por Billy Tompson quando eu tinha dez anos e criamos nosso clube secreto no orfanato. Ele 
projetou un aperto de mo especial, que comeava com a presso dos polegares. Havia tambm senhas secretas. Talvez as pessoas refinadas e sofisticcadas tambm tivessem 
seu clube secreto.
- Tambm detesto a expresso "numa boa", outtra mania dos adolescentes hoje em dia. Quando algum diz "Como vai?", voc responde "Muito bem, obrigada". Tudo isso 
ser muito importante quando os juizes realizarem suas entrevistas. Pois tambm vo julgar o comportamento e o charme.
- Que juizes?
- Os juizes do concurso. No est escutando? Havia alguma irritao na voz de Pamela.
- Estou, sim. Mas quando entrarei num concurso?
- No quero que participe de qualquer coisa enquanto no estiver preparada. Mas creio que o primeiro ser daqui a seis meses.
- Seis meses? E que concurso ser?
- No  um dos mais prestigiados, mas  bom para voc ter sua primeira experincia.  o Miss Nova York Adolescente do Turismo. A vencedora ganha uma bolsa de estudo, 
no que voc precise disso. Passa a representar o Estado em diversas promoes publicitrias, aparecendo
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em cartazes e at mesmo num vdeo. Eu gostaria que voc ganhasse.
Ganhar? Eu no teria coragem para passar pela porta, muito menos entrar no palco. Mas Pamela exibia aquela expresso determinada que eu j aprendera a reconhecer; 
quando ela assumia a expresso, era melhor no contrari-la.
Minha educao no que eu agora pensava como Guia de Comportamento Apropriado para Garotas de Sangue Azul continuou assim que chegamos em casa naquele dia. A tarde 
foi reservada para um curso de etiqueta  mesa. Subitamente, a sala de jantar transformou-se em sala de aula.
- Sente-se empertigada. - Pamela demonstrou. - Pode se reclinar um pouco para o encosto da cadeira. Mantenha as mos no colo quando no estiver comendo. Assim, no 
ficar mexendo nos talheres. Detesto isso, ainda mais quando as pessoas batem com o garfo no prato ou na mesa. Uma tremenda falta de educao. Voc pode, como estou 
fazendo agora, apoiar a mo ou o pulso na mesa, mas nunca todo o antebrao. Nunca passe as mos pelos cabelos, absolutamente nunca. Os cabelos podem se soltar, flutuar 
pelo ar at os pratos ou a comida.
Ela fez uma pausa.
- Se tiver de se inclinar para a frente, a fim de ouvir a conversa de algum, pode apoiar os cotovelos na mesa. Na verdade, como pode constatar quando fao, parece 
mais gracioso do que apenas se inclinar para a frente, de uma maneira estpida. Est vendo?
- Estou, sim.
Pamela me mandou fazer tudo o que instrura.
- Os adolescentes... - Ela pronunciou a palavra como se fssemos animais primitivos. - ...costumam inclinar a cadeira para trs. Nunca faa isso. J sabe que
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deve pr o guardanapo no colo. Mas deve, por cortesia, esperar que a anfitri ponha o seu primeiro. Como sou a anfitri desta casa, em qualquer dos nossos jantares, 
espere por mim. Est bem? Acenei com a cabea.
- Tambm no sacuda o guardanapo. Detesto isso. Alguns amigos de Peter sacodem o guardanapo com tanta fora por cima do prato que at apagam as velas. So muito 
grosseiros.
Quando Joline comeou a servir a comida, Pamela explicou:
- Assim como faz com o guardanapo, tambm no comece a comer antes da anfitri. No seu primeiro dia aqui no sabia que talher usar primeiro. Sempre comece com o 
talher que estiver mais longe do prato. Agora, observe como corto a carne, como uso o garfo, como mastigo a comida. No corte um pedao muito grande. Mastigue com 
a boca fechada, e nunca fale com comida na boca. Se algum fizer uma pergunta enquanto estiver mastigando, termine de mastigar primeiro e s depois responda. Se 
suas companhias ao jantar forem sofisticadas, sabero que devem esperar.
Pamela fez outra pausa.
- Vai descobrir na Agnes Fodor que todas as garotas seguem essas regras de etiqueta, Brooke. No quero que se sinta inferior no refeitrio da escola. Se cometer 
um erro, no o prolongue, est bem?
- Claro.
Eu nunca me sentira to nervosa ao comer. Para ser franca, tinha os nervos  flor da pele. A comida fervilhava em meu estmago. No me lembrei depois do gosto de 
nada.
Ao jantar, eu deveria fazer tudo para Peter ver. Olhava para Pamela depois de cada movimento, quase depois de cada mordida, a fim de verificar se ela estava
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satisfeita ou no. Em geral, Pamela acenava com a cabea ligeiramente ou franzia as sobrancelhas, se alguma coisa saa errada.
- Vem fazendo maravilhas com ela - declarou Peter. - No falei que se encontrava nas mos de uma profunda conhecedora de elegncia e beleza, Brooke?
-  verdade.
- Quase no reconheci esta garota, Pamela.  a mesma pobre coitada que trouxemos para ser nossa nova filha? Pamela, voc  uma mestra nisso.
Pamela ficou radiante com o elogio. Depois, quando ns duas ficamos a ss, ela iniciou o que considerava o segundo estgio do meu desenvolvimento: como manipular 
os homens.
- J reparou como Peter me elogia com freqncia? Acenei com a cabea, porque havia notado e especulado se todos os maridos eram assim.
- No acontece por acaso - continuou ela. - Se deixa um homem saber que espera que demonstre sua apreciao, ele vai fazer tudo para adul-la. Sou uma profissional. 
Fiz da feminilidade minha profisso. No estou dizendo que sou uma dessas criaturas da libertao feminina que aparecem nas revistas e na televiso se queixando. 
Elas pensam que vo conseguir o que querem com reivindicaes e protestos.
Pamela sorriu.
- S h uma maneira segura de conseguir o que voc quer de um homem. Faa com que ele pense que voc o considera especial, que sempre o tratar assim, se ele trat-la 
tambm como especial. Faa-o acreditar que  seu protetor. Seja frgil, delicada. Precisa da fora dele. O homem ir  loucura no esforo para proteg-la, para mant-la 
feliz... e voil, voc sempre conseguir o que quer.
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Ela fez um gesto largo ao final. Depois de uma pausa, logo continuou:
-  mais fcil do que protestar. Ao mesmo tempo, voc se diverte. Quem quer marchar com cartazes ao sol quente, gritando e queimando sutis? E quem quer parecer 
como elas? Algumas preferem morrer a usar batom, muito embora sejam to plidas que at podem passar por mortas. Espero que voc compreenda o que estou dizendo, 
Brooke.  muito importante.
Eu compreendia e no compreendia. Os homens ainda eram um grande mistrio para mim. Sentia-me mais  vontade e segura ao enfrent-los, j que era to forte quanto 
os garotos da minha idade, to rpida num campo de jogo. Nunca me comportava como se fosse uma irm mais fraca. Sabia que me respeitavam porque costumavam me escolher 
para seus times antes de alguns garotos, mas sabia que era uma coisa que Pamela no gostaria de ouvir.
- Reparou na maneira como pisquei para Peter? Quando ri, prestou ateno aos movimentos dos meus olhos e ombros? Trate de me observar em todas as ocasies.
Eu me sentia realmente chocada. Pamela planejava mesmo cada gesto, cada movimento dos ombros, cada reao dos olhos e da boca? E se ela o fazia, ser que isso era 
certo? Em minha opinio, ela conspirava contra Peter, enganando-o e manipulando-o. Tinha dvidas se era alguma coisa que se fazia com a pessoa que se amava. No 
podia deixar de perguntar.
- Mas Peter no faria qualquer coisa por voc, de qualquer maneira, porque a ama?
Pamela soltou uma risada.
- Como acha que pode fazer algum am-la, Brooke? Pensa que  como no cinema ou naqueles livros romnticos? Pensa que algum olha para voc, atravs
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de uma sala lotada, e  atingido por um raio?  preciso trabalho para fazer algum am-la. E, de qualquer forma, os homens no sabem o que querem na metade do tempo. 
 preciso mostrar a eles o que querem. Ela me fitava nos olhos, sria agora.
- A maioria dos homens pensa que uma linda mulher  algum com seios grandes, os quadris balanando como o pndulo num relgio antigo. Mas uma linda mulher  muito 
mais do que isso, Brooke.  preciso acalentar e desenvolver sua beleza, como estou lhe ensinando. S assim voc saber que  especial... e todos os homens que a 
contemplarem tambm sabero.
Uma pausa e Pamela concluiu:
- Quando for especial, todos se apaixonaro por voc. Poder ento escolher quem quiser. Foi o que aconteceu comigo. Tambm acontecer com voc, se fizer tudo o 
que eu mandar.
Conquistar um homem era a nica razo para a nossa existncia, nosso nico propsito? Tive vontade de perguntar isso. Mas com tantos outros pensamentos e indagaes 
me fazendo ccegas na lngua, tratei de me conter. Preferi guardar para outra ocasio, em vez de me arriscar  sua ira e desaprovao.
Apesar da maneira como Pamela falava e pensava, eu queria que ela me amasse como me. Queria que Peter fosse meu pai. Queria que nos tornssemos uma famlia. Queria 
que rssemos e nos divertssemos juntos, fizssemos as coisas que eu via outras garotas da minha idade fazerem com suas famlias. Era natural que Pamela quisesse 
que eu fosse igual a ela, pensei. Dessa maneira, ela sentiria que tinha de fato uma filha.
O que me surpreendeu e at me assustou um pouco, no entanto, foram suas instrues a caminho da escola Agnes Fodor, para me matricular. Queria que eu comeasse minha 
vida nova com uma grande mentira.
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- Exceto pela sra. Harper, a diretora, no quero que ningum mais saiba que voc veio de um orfanato, Brooke.
- Como assim?
- A sra. Harper compreende por que prefiro assim. E acredite em mim: voc vai se sentir mais  vontade, especialmente na companhia das outras garotas, se esse pequeno 
detalhe for esquecido.
Esquecido? Pequeno detalhe? Durante toda a minha vida eu fora uma rf. No tinha outras experincias. Como poderia fingir que era outra pessoa?
- Mas o que vou dizer? O que contarei s pessoas a meu respeito?
- Diga que  nossa filha. Diga que decidimos mand-la para a Agnes Fodor, porque sua escola pblica degenerou. Um novo grupo de estudantes das classes mais baixas 
pouco a pouco se tornou a maioria na escola pblica. Por isso, surgiram muitos problemas. Seus pais ficaram preocupados com sua segurana e tambm com sua educao. 
A maioria das garotas vai compreender porque j passou por essa experincia. Os pais as matricularam na Agnes Fodor para afast-las da educao pblica inferior 
e das influncias perniciosas.
Eu me sentia aturdida.
- Se voc se comportar como venho lhe ensinando, todas acreditaro que  mesmo quem diz ser. E pelo menos ningum ter vergonha de convid-las para sua casa, no 
 mesmo? Tenho quase certeza de que voc no ter nenhum problema.
Com um sorriso confiante, Pamela acrescentou:
- Quando em dvida, apenas fique calada at me consultar. Ou pode falar a meu respeito. Conte sobre meu trabalho como modelo, meus ttulos. A maioria das mes no 
 nem de longe to atraente. Elas tero inveja imediatamente.
Pamela sorriu.
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- No imagina como me sinto excitada por voc. Lembro quando entrei na escola de etiqueta. Tenho certeza de que Peter e eu nos orgulharemos de voc muito em breve.
Olhei pela janela do carro. Quando vivia no orfanato e no tinha nada de valor real, nem mesmo um sobrenome, no precisava mentir. Agora que era rica, morava num 
palcio, tinha mais roupas no closet do que dez garotas juntas no orfanato; agora que tinha criados e s andava de limusine, devia fingir que era outra pessoa.
A estrada para a felicidade era longa e sinuosa, repleta de armadilhas e iluses. Quando dera adeus  garota que eu era quando vivia no orfanato, nunca sonhara que 
poderia quer-la de volta. Mas por um momento, a caminho daquela escola nova e maravilhosa para as ricas e privilegiadas, ansiei em retornar a quem eu era, quem 
fora, assim como s vezes a pessoa deseja poder vestir de novo as roupas confortveis e surradas, uma parte de sua personalidade, mesmo estando elas fora de moda 
e velhas demais.
- Chegamos! - anunciou Pamela. - A Agnes Fodor. Nem parece uma escola, no ?
Olhei para o enorme prdio de pedra num pequeno vale, cercado pelo verde, rvores lindas, com um laguinho por trs. Tudo era limpo e perfeito. E tranqilo. Ela tinha 
razo. No parecia uma escola. Era mais como um solar antigo.
Respirei fundo. O que Pamela deveria mesmo ter me ensinado era representar. Sentia-me apreensiva. No sabia mentir direito. Quem conversasse comigo certamente no 
acreditaria em minhas histrias e respostas. O que tornaria tudo ainda pior. Com o corao batendo forte e ps que pareciam se arrastar pela lama, entrei na nova 
escola para me tornar uma nova pessoa.
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6 - Uma estrela cintilante

Com olhos cinzentos, frios e desconfiados, a sra. Harper me fitava. Eu me sentia intimidada com a escola. O saguo tinha um mural que se estendia do cho ao teto. 
Era uma cena de querubins olhando com devoo para um lampio aceso. Os chos de mrmore faiscavam em torno de sofs, cadeiras e mesas. Uma garota de uns quinze 
anos nos cumprimentou assim que entramos. Apresentou-se como Hiliary Lindsey e disse que estava de servio como recepcionista da escola. Portou-se, falou e me estendeu 
a mo da maneira como Pamela descrevera e me instrura a cumprimentar as pessoas. Enquanto Hiliary nos conduzia pelo corredor para o gabinete da sra. Harper, Pamela 
lanou-me um olhar, acenou com a cabea e sorriu, como a dizer " assim que deve se comportar, est vendo?"
Fiquei ainda mais nervosa. A sala de espera era to impecvel quanto o saguo. A secretria da sra. Harper, srta. Randall, era uma ruiva baixa e de busto grande, 
com fios brancos nas tmporas e no alto da testa larga, que ela franziu ao nos ver entrar.
Hiliary apresentou-nos a ela e depois me fitou,
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com um pequeno sorriso, antes de se retirar. Momentos depois, a porta da outra sala foi aberta e a sra. Harper nos convidou a entrar. Era alta, os quadris estreitos, 
um busto pequeno, quase invisvel no vestido azul-escuro, largo, descendo at os tornozelos. Os cabelos eram castanho-escuros, os olhos castanho-claros. Tinha um 
nariz pontudo e a boca pequena. As faces eram achatadas, o que fazia o rosto parecer ainda mais estreito. Tinha o tipo de pele que eu sabia que Pamela admirava, 
sem qualquer ruga, nem mesmo um vinco na testa.
Tudo em sua mesa era organizado, o mogno escuro parecendo to polido e limpo quanto o resto que eu vira at agora.  sua frente, em cima da mesa, havia uma pasta 
com meu nome.
- A Agnes Fodor  uma escola de grande prestgio, muito bem considerada, uma instituio excepcional - comeou ela. - Todas as minhas alunas tm um comportamento 
da mais alta qualidade. Vai notar imediatamente enormes diferenas entre a Agnes Fodor e a escola pblica mdia.
Nada em seu rosto se movia, a no ser os lbios pequenos e finos.
- Para comear, nossas turmas so muito pequenas. Acreditamos em oferecer uma instruo personalizada s alunas. Por outro lado, todas as nossas alunas pertencem 
ao que chamamos de sistema de honra. No esperamos que os professores se preocupem com problemas de comportamento. Todas conhecem as normas sob as quais vivemos 
e as respeitam. Se uma garota viola uma norma, deve confessar a violao. No que isso costume ocorrer. Um professor pode at se retirar da sala durante uma prova. 
Nossas alunas no colam. Vai notar que os armrios no tm cadeados. Nossas alunas no roubam. Vai notar que nossos banheiros so imaculados. No h pontas de cigarro 
repulsivas nos vasos ou
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pias. Nossas alunas no fumam na escola... e a maioria tambm no fuma fora da escola.
- Fumar  a pior coisa para a pele - comentou Pamela.
A sra. Harper fitou-a por um momento com quase a mesma intensidade com que me olhava. Depois, tornou a se virar para mim, com um movimento brusco da cabea, que 
nem um fantoche.
- Vai notar que no h pedaos de papel ou refugos de qualquer tipo no cho das salas de aula ou dos corredores. Nossas alunas no jogam lixo no cho. Nunca vai 
encontrar chicletes grudados debaixo de cadeiras. No permitimos chicletes na escola. Depois do almoo, em nosso refeitrio, h bem pouco para as zeladoras fazerem. 
As alunas tiram as mesas. At as limpam, se for necessrio.
Ela fez uma pausa.
- Nos intervalos entre as aulas, ningum levanta a voz. Nossas alunas no gritam entre si. Nunca, mas nunca mesmo, houve qualquer tipo de comportamento violento 
em toda a histria da Agnes Fodor. Se duas alunas tm alguma divergncia, so exortadas a levarem o problema ao comit judicial, que  constitudo por alunas eleitas 
para o cargo. Temos uma organizao estudantil muito produtiva e ativa, contando com a nossa confiana total. As alunas se policiam. Se algum violar uma de nossas 
normas, tem de comparecer perante um comit de colegas, sendo julgada e punida de acordo.
- Mas pensei que ningum violava as normas - murmurei.
S falei isso porque me sentia um pouco confusa. Mas os olhos frios da sra. Harper se tornaram de repente carves em brasa. O rosto empalideceu, as veias no pescoo 
saltaram, at que pareciam em relevo sob a
pele.
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- O que eu quis dizer foi que elas raramente violam as normas, to raramente que no ano passado o comit judicial s se reuniu duas vezes... durante o ano inteiro.
Ela olhou para Pamela e continuou:
- A Agnes Fodor no tem o hbito de aceitar uma aluna que no tenha um histrico de criao apropriada. Mas tendo em vista a sua posio e a de seu marido na comunidade, 
temos certeza de que Brooke vai se adaptar num instante a nossos elevados padres.
Comeara parecendo um elogio, mas terminara como uma ameaa, pensei. Pamela sorriu.
- Temos certeza quanto a isso.
- O que  timo. - A sra. Harper abriu a pasta com meu nome. Examinou-a por um momento, depois tornou a me fitar. - No tem sido exatamente o que poderamos chamar 
de uma boa aluna. Mas em geral constatamos que nossas alunas experimentam uma melhora imediata em seu desempenho aqui.  o mnimo que esperamos de voc, apesar de 
suas infelizes origens.
A sra. Harper acenou com a cabea para Pamela e acrescentou:
- Como sua me solicitou, nada sobre seu passado sair desta sala. Sua pasta ficar em meus arquivos. Serei a nica que poder v-la.
- Obrigada - disse Pamela.
- Contudo - continuou a sra. Harper, como se Pamela no tivesse falado -, voc sabe que eu sei... e sabe o que espero de voc. Alguma pergunta?
Balancei a cabea.
Ela me observou atentamente, os olhos me esquadrinhando como pequenos refletores,  procura de qualquer imperfeio. Remexi-me na cadeira, contrafeita. Finalmente, 
a sra. Harper fechou a pasta e levantou-se.
- Venha comigo.
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Levantei-me e segui-a.
Pamela estendeu a mo e tocou em meu brao quando cheguei  porta. Sorriu e murmurou:
- Boa sorte.
Acenei com a cabea e continuei a seguir a sra. Harper. Antes de deixar seu gabinete, ela virou-se e disse para Pamela:
- Voltaremos logo, sra. Thompson.
A sra. Harper tornou a olhar para mim e fez sinal para que eu a acompanhasse. Andava depressa, em passos surpreendentemente largos. Eu quase tinha de dar dois passos 
para cada um dos seus.
- Esta  a aula de ingls do sr. Rudley. Como ele ser seu professor principal, j tem a sua agenda.
Ela abriu a porta. O sr. Rudley, um homem alto, em torno dos cinqenta anos, com os cabelos um pouco mais escuros do que cinza, levantou os olhos do livro em suas 
mos. Sentava na beira da mesa e ergueu-se de um pulo assim que viu a sra. Harper. Toda a turma, formada por seis garotas, virou-se e ficou de p no mesmo instante. 
Elas me fitaram com o maior interesse.
- Esta  a nova aluna que lhe informei que comearia hoje, sr. Rudley - anunciou a sra. Harper. - Seu nome  Brooke Thompson.
- Est certo, sra. Harper. Seja bem-vinda, Brooke. Pode sentar-se ali.
Ele acenou com a cabea para uma carteira vazia  sua direita. Atravessei a sala apressada e esperei para sentar ao mesmo tempo que as outras. A sra. Harper permaneceu 
na porta.
- Eu consideraria um favor pessoal, meninas, se ajudassem Brooke a se sentir  vontade em nossa escola. Ela foi transferida de uma escola pblica.
Os cantos da boca da sra. Harper se contraram para baixo, numa bvia desaprovao. As meninas olharam
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para mim. Uma loura magra, de olhos azuis e sardas salpicadas nas faces, fitou-me com mais intensidade. No pude determinar se era um olhar de boas-vindas ou de 
advertncia.
- Providencie para que ela receba sua agenda, sr. Rudley - acrescentou a sra. Harper, antes de sair e fechar a porta.
Houve um momento de silncio. O sr. Rudley acenou com a cabea e sentamos. Ele pegou minha agenda na mesa.
- Vamos nos apresentar, meninas - disse ele  turma. - Margaret?
- Sou Margaret Wilson. Prazer em conhec-la. Antes que eu pudesse responder, a garota por trs, mais baixa e morena, continuou:
- Sou Heather Harper, sobrinha da sra. Harper.
A declarao foi feita num tom um tanto presunoso.
- Sou Lisa Donald - disse uma garota de cabelos ruivos e os olhos mais verdes que eu j vira.
Ela parecia mais velha do que as outras porque tinha um busto ainda mais cheio do que o meu falso. Tambm havia em seus olhos um brilho mais perceptivo e sofisticado.
- Sou Eva Jensen - declarou uma jovem loura de aparncia escandinava. Tinha um rosto rigidamente marcado e era muito magra.
- Meu nome  Rosemary Gillian - informou uma garota de cabelos castanhos.
Ela tinha covinhas nas faces e uma fenda no queixo, sob os lbios cheios. Achei que tinha um brilho malicioso nos olhos, especialmente pela maneira como sorriu para 
as outras garotas depois que falou.
- Helen Baldwin - declarou a garota que me fitara primeiro com maior interesse.
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- Muito bem. - O sr. Rudley me entregou um livro. - No sei o que voc fazia na outra escola, mas estamos comeando a leitura de Romeu e Julieta. Cada aluna l um 
papel. Algumas lem dois ou trs, porque somos apenas sete na sala.
- Oito agora - ressaltou Rosemary.
- Exatamente - disse o sr. Rudley. - Por que voc no fica com o papel de...
- Ela pode ser Romeu - interrompeu Heather Harper. - No me sinto  vontade no papel de um homem.
- Esqueceu que ele  apenas um menino? - corrigiu Lisa Donald. - Foi o que o sr. Rudley nos disse.
-  isso mesmo - confirmou o sr. Rudley. - Romeu e Julieta na pea no so muito mais velhos do que vocs.
- Alm disso, o sr. Rudley nos contou que um menino fazia o papel de Julieta nos tempos de Shakespeare - continuou Lisa. - Portanto, no  importante quem l que 
papel.
- Acho que  - insistiu Heather. - Prefiro ler Julieta. Por que voc no l Romeu ento? Por que tem de ler Julieta?
- Porque o sr. Rudley mandou - respondeu Lisa.
- J chega, meninas. Brooke?
- No me importo de ler Romeu.
Olhei para as outras. Heather exibia um sorriso afetado.
- timo - disse o sr. Rudley. - Vamos voltar  pea.
Quando a campainha tocou, Eva Jensen e Helen Baldwin se aproximaram e se ofereceram para me mostrar a escola. Eu esperava que haveria mais alunas na prxima aula, 
mas o grupo das sete permaneceu junto pelo resto do dia. A passagem de uma sala para outra
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era como a sra. Harper descrevera: ordenada e comedida. Outras meninas me foram apresentadas, mas houve pouco tempo para conversas de verdade at a hora do almoo. 
Como era de se esperar, todas queriam saber onde eu estudara antes, como era a escola. S Heather Harper dava a impresso de que no tinha o menor interesse por 
minhas respostas.
- Tem irmos ou irms? - perguntou ela.
- No.
- Seus pais so muito ricos?
As outras garotas pareceram recuar para deix-la assumir o comando da conversa.
- So, sim. Meu pai  um advogado muito importante.
- O meu tambm - declarou Heather. - At que ponto vocs so ricos?
- No sei... isto , no sei exatamente quanto dinheiro temos.
- Pois eu sei - gabou-se ela. - S que no conto a ningum.
- Ento por que pediu a ela para lhe contar? - indagou Eva Jensen.
- S para ver se ela diria. - Heather soltou uma risada. - De qualquer forma, eu poderia descobrir, se quisesse. Minha tia sabe quanto dinheiro todas aqui tm. Nossos 
pais tiveram de apresentar uma declarao financeira como qualificao para a escola.
- Ela no lhe contaria nada - declarou Rosemary Gillian. - E se souber que voc sequer disse isso, poderia expuls-la da escola.
Heather pareceu murchar em sua cadeira.
- Eu estava brincando. Todas querem apenas impression-la, Brooke.  o que sempre fazem quando uma nova aluna entra na escola. O que est achando daqui?
Ela retomou seu papel de inquisidora.
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- O lugar  lindo - respondi. - Nem posso acreditar que  uma escola.
As outras sorriram.
- Tambm no podemos - comentou Heather, sarcstica.
- Fico contente que voc tenha vindo estudar aqui - murmurou Eva, com uma expresso afetuosa nos olhos. - Sempre precisamos de novas amigas.
- O que est querendo dizer com novas amigas? - perguntou Heather, num tom zombeteiro. - No deveria falar apenas em amigas e ponto final?
As outras riram. Eva deu a impresso de que poderia chorar.
- Claro que preciso de amigas. Nunca se pode ter amigas demais. - Olhei para Heather. - Isto , amigas de verdade.
Ningum falou por um momento, at que Heather soltou uma risada.
- Touch! - exclamou ela. - Sabe o que isso significa?
Eu no tinha certeza, mas acenei com a cabea. A campainha tocou. Todas nos levantamos. Observei que cada garota verificava se seu lugar  mesa estava limpo. Fiz 
a mesma coisa e segui-as para a prxima aula. Heather foi andando ao meu lado.
- Voc no parece vir de uma famlia rica - comentou ela.
- Por que no?
-  agradecida demais.
Ela sorriu pelo que julgava ser uma grande astcia. Todas riram, at Eva, olhando para mim. Pensei: por que no embarcar tambm no navio delas? Acompanhei-as no 
riso, o que fez com que todas, at mesmo Heather, se sentissem melhor a meu respeito. Talvez eu
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pudesse fazer aquilo, refleti. Talvez pudesse passar por algum que no era.
A aula de educao fsica foi a ltima do dia. Nossa turma se juntou com quatro outras, incluindo alunas da nona, dcima e at da dcima primeira sries. No total, 
havia o suficiente para duas equipes de softball, uma variedade mais suave de beisebol. A professora, sra. Grossbard, era uma ex-corredora olmpica, integrante de 
um revezamento que ganhara uma medalha de bronze. Fitou-me com evidente interesse quando me apresentei no uniforme de educao fsica da escola, uma blusa branca 
com o logotipo da Agnes Fodor no lado esquerdo do peito e um short azul-escuro. A escola tambm nos fornecia tnis e meias.
- Jogava softball na sua ltima escola? - perguntou-me a sra. Grossbard.
- Jogava, sim, madame.
- Pode me chamar de treinadora. Tenho a maravilhosa distino de ser a treinadora de softball da escola, a treinadora de natao, corrida e basquete. Tambm tenho 
a distino de nunca ter tido uma temporada vitoriosa em qualquer desses esportes. Mas - Ela soltou um suspiro. - ...bem que tento. Fao o melhor que posso com garotas 
que tm medo de quebrar uma unha.
Ela me fitou em silncio por um momento, depois acrescentou:
- V para a segunda base do time azul e pegue o basto na quinta posio.
Fui para o campo com a minha equipe. Eva foi para a primeira base, provavelmente por causa de sua altura. Heather foi ocupar uma posio alm do losango. Sentou-se 
na grama no mesmo instante. As outras meninas da minha turma ficaram no time branco.
Senti-me bem por estar ao ar livre, esticando os
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braos e pernas, usando os msculos. Era um lindo dia para uma partida de softball. O cu estava azul claro, com algumas nuvens brancas aqui e ali. A brisa amena 
em meu rosto era revigorante. O sol j descera por trs das rvores e no incidia em nossos olhos. A fragrncia da grama recm-cortada era inebriante.
Infelizmente, nossa lanadora teve dificuldade para arremessar a bola at a base da batedora. As trs primeiras bolas caram no cho na frente da batedora. A sra. 
Grossbard mandou que a lanadora chegasse mais perto. O que ela fez. O arremesso seguinte foi alto demais para que algum pudesse alcanar. O outro quase acertou 
na batedora.
- Espere um instante.
A sra. Grossbard cobriu os olhos com as mos, como se no quisesse olhar para a turma por um momento. Ou como se estivesse conversando consigo mesma. Depois, pegou 
a bola e a jogou para mim. Peguei-a com a maior facilidade.
- Jogue de volta.
Foi o que fiz. Ela pegou a bola na volta e ordenou:
- Troque de lugar com Louise.
- Por qu? - protestou Louise, nossa lanadora.
- No sei. Pensei que poderamos tentar jogar mais de um turno hoje - respondeu a sra. Grossbard, sarcstica.
Louise lanou-me um olhar furioso ao passar por mim.
- Faa um aquecimento - determinou a sra. Grossbard.
Encenei meia dzia de lanamentos.
- Agora pode jogar a bola - ordenou a sra. Grossbard, com um certo brilho nos olhos.
A primeira batedora voltou  base e acertou em meu lanamento de raspo. A bola subiu e caiu um metro 
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sua frente. Sa correndo e peguei a bola ainda no ar. Meu time bateu palmas e gritou. A sra. Grossbard, encostada na barreira, empertigou-se no mesmo instante.
A batedora seguinte foi para a base. Errou as trs bolas que lancei. A terceira batedora acertou meu ltimo arremesso. Mas a garota na terceira base do meu time, 
Stacey, aluna da dcima primeira srie, conseguiu peg-la. Fez um lanamento bastante bom para mim, antes que a batedora alcanasse a primeira base.
Fomos bater a bola.
- J tinha lanado antes? - perguntou-me a sra. Grossbard.
- J, sim.
- E por que no me disse que era a sua posio habitual?
- No sei.
- De um modo geral, as garotas aqui no hesitam em me dizer aquilo em que pensam que so boas. A modstia nesta escola  to rara quanto a pobreza.
No entendi o que ela quis dizer, mas sorri e acenei com a cabea, antes de ir sentar no banco.
Nossa primeira batedora rebateu uma bola fraca, que caiu perto da segunda base. Era Lisa Donald quem estava ali. Ela caiu ao tentar pegar a bola. Conseguimos assim 
ter uma jogadora na base. Nossa segunda batedora saiu sem acertar as trs bolas. A terceira rebateu uma bola com toda fora entre a primeira e a segunda bases. Tnhamos 
garotas na primeira e terceira bases quando nossa quarta batedora, uma gorducha chamada Cora Munsen, rebateu a bola na direo da segunda base. A garota ali deixou 
a bola cair. Tnhamos todas as bases ocupadas quando fui rebater pela primeira vez em minha nova escola.
Todos os olhos fixavam-se em mim, algumas torcendo para que eu errasse, a maioria apenas curiosa. Vi o aceno de aprovao da sra. Grossbard pela maneira
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como segurei o basto e assumi a posio. Meu "corao batia forte. Sa do lugar por um momento, para recuperar o flego e me controlar. Voltei  posio.
O primeiro lanamento foi muito baixo e o segundo muito aberto, mas o terceiro foi lento e pelo meio, do tipo que eu mais apreciava. Calculei o momento apropriado 
e acertei a bola com toda fora. Subiu e subiu, passou por cima da cabea da jogadora no meio do campo externo. Havia uma pequena elevao no fundo do campo de beisebol 
da escola. A bola bateu l em cima e comeou a rolar. Mas estava muito longe da jogadora naquela posio. Ela nunca teria tempo para alcan-la e jog-la para outra, 
antes que eu contornasse todas as bases.
Logo em meu primeiro jogo na nova escola eu conseguia realizar um home run.
E a sra. Grossbard aplaudiu com tanto entusiasmo quanto qualquer outra pessoa j me aplaudira na escola pblica.
Depois, todas falaram sobre o meu desempenho. Vrias garotas vieram se apresentar no vestirio. Ao deixarmos a rea do ginsio, para embarcarmos nos pequenos e luxuosos 
nibus, no havia praticamente uma nica aluna da Agnes Fodor que no tivesse ouvido falar da mais longa rebatida e seu home run no campo da escola. Ao final do 
dia, as conversas sobre a minha rebatida tinham se tornado to exageradas que havia quem dissesse que a bola cara no outro lado da elevao.
A sra. Grossbard veio falar comigo antes de eu pegar o nibus de volta para casa.
- Amanh voc vai se inscrever na equipe de softball, est bem?
- Claro.
- Puxa, podemos at ganhar algum jogo este ano! No maior excitamento, entrei no nibus, ansiosa em me gabar para meus novos pais sobre o primeiro dia na escola.
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6 - Preciso ser eu

Ainda excitada, corri para a porta da frente da minha nova casa. Entrei, mal conseguindo me conter. J ia subir para o meu quarto, a fim de trocar de roupa, quando 
Pamela saiu da sala de estar.
- Ainda bem que chegou em casa na hora. Venha at aqui.
Ela acenou com a cabea para a sala de estar.
- Eu ia subir para guardar os livros e trocar de roupa. Queria contar tudo sobre...
- Venha agora - insistiu Pamela, com uma voz mais firme. - Quero apresent-la a uma pessoa.
Obediente, avancei pelo corredor e entrei na sala. Um homem baixo e calvo, com um rosto to redondo quanto uma moeda, estava de p ali. Fitou-me com seus enormes 
olhos cinza. Tinha uma mancha marrom-escura no crnio, afora isso lustroso. Parecia que algum derramara molho de carne ali, porque a mancha se espalhava em linhas 
finas para trs da cabea e para as tmporas.
- Este  o professor Wertzman, Brooke. Contrateio para lhe dar as primeiras aulas de piano. As concorrentes precisam demonstrar algum talento. O professor
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lhe ensinar a tocar bastante bem para poder apresentar alguma msica.
Mais parecia que ela ordenara assim, que teria de ser assim de qualquer maneira.
- Mas no tenho nenhum talento musical - protestei, desolada. - Nunca sequer tentei tocar piano.
- Isso acontece porque nunca teve um piano para tocar. Que aulas lhe foram oferecidas no orfanato? - O sorriso de Pamela era frio. - Mas agora voc tem todas as 
melhores coisas da vida  sua disposio. O sr. Wertzman  um dos mais conceituados professores de piano. Foi preciso muito empenho para persuadi-lo a liberar uma 
parte do seu tempo para voc. Mas ele sabe como isso  importante para mim.
Pamela fitou-o com olhar gelado. Quando ele sorriu, o queixo tremeu e as narinas se contraram e dilataram, como as de um coelho.
-  uma honra para mim ser capaz de prestar um favor a voc e ao sr. Thompson.
- Est vendo, Brooke? Todos querem ajud-la. A partir de hoje, ter uma aula todos os dias, depois da escola. Portanto, venha direto para casa.
- Mas...
- Mas o qu?
Ela olhou para o professor, que alargou seu sorriso. Os dois me fitaram.
- A sra. Grossbard, professora de educao fsica, me convidou para entrar no time de softball da escola. Acertei um home run hoje, logo na primeira vez que rebati. 
Tenho de ficar na escola depois das aulas para treinar todos os dias.
Por um momento, Pamela permaneceu em silncio, aturdida, piscando os olhos. O constrangimento do professor era evidente. Ele limpou a garganta e balanou nos calcanhares, 
com as mos nas costas.
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- Tem alguma idia do custo e esforo necessrios para trazer o professor Wertzman at aqui? - comeou Pamela, a voz suave. - Sabia que o professor d aulas  maioria 
dos pianistas das melhores famlias da nossa comunidade? Ele me garantiu que poder prepar-la para tocar uma pea em seis meses. Ningum mais pode fazer tal promessa. 
Voc  uma jovem muito afortunada.
A maneira como ela disse afortunada fez-me pensar que eu podia ser qualquer coisa menos isso.
- No me importo! No quero aprender a tocar piano. Nunca me interessei por piano. Acertei um home run. - Comecei a recuar. - Sou uma boa jogadora de softball. E 
quero entrar para o time.
- Brooke!
- No! Voc no se importa nem um pouco comigo! S quer me fazer igual a voc!
Virei e me encaminhei para a escada.
- Volte aqui agora! Brooke!
Subi correndo e entrei em meu quarto, as lgrimas escorrendo. Joguei-me na cama, comprimi o rosto contra o travesseiro.
Ela no tinha o direito de fazer aquilo, de planejar coisas sem me consultar antes. "E no me importo com o que ela possa fazer", pensei. "No me importo se me mandar 
de volta." Parei de chorar, enxuguei os olhos, sentei enlaando os joelhos,  espera de Pamela, que com certeza viria atrs de mim, furiosa. Escutei atentamente, 
na expectativa de seus passos no corredor. Mas no ouvi nada. Depois de um longo tempo, troquei de roupa, vestindo o que Pamela chamava de traje mais informal, uma 
cala comprida e uma blusa. No me senti mais confortvel do que com as roupas que usava na escola. E senti saudade do meu jeans, camisetas e bluses.
Ainda tinha medo de descer. Por isso, abri os livros e comecei os deveres de casa. Quase uma hora e meia
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depois ouvi uma batida na porta. No ouvira passos. E no esperava que Pamela batesse. Ela sempre entrava direto.
- Pois no?
A porta foi aberta. Era Peter. Usava um terno azulmarinho sob medida, parecia to vigoroso e bem-disposto como se estivesse comeando o dia.
- Importa-se se eu entrar, Brooke?
- No.
Ele sorriu, entrou e fechou a porta.
- Parece que temos a nossa primeira crise familiar.
- No tenho nenhum talento musical.
- Como sabe disso?
- No sei, mas no quero tocar piano. Peter sentou na beira da cama.
- Voc ainda  muito jovem para saber o que quer e o que no quer.  como algum que jamais experimentou caviar dizer "No quero comer caviar, porque no gosto". 
Certo?
- Acho que sim.
Funguei. No queria recomear a chorar, mas podia sentir que lgrimas quentes se acumulavam por trs dos olhos.
- Ou seja, no pode saber se quer tocar piano at experimentar. Pode descobrir que a experincia  maravilhosa. Ou pode fazer progressos to rpidos que ficar emocionada. 
Voc  uma jovem muito inteligente, Brooke. Tenho certeza de que pode compreender meu argumento.
No falei nada por um momento. Depois, respirei fundo e virei-me para ele. As lgrimas ainda ardiam por trs das plpebras.
- Acertei um home run na aula de educao fsica hoje. Foi um grand slam, porque tnhamos trs jogadoras nas bases.
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-  mesmo? - Peter arregalou os olhos. - Uma jogada sensacional?
- Foi mesmo. E era a primeira vez que eu rebatia na nova escola. A treinadora me convidou para entrar no time. Precisa de uma lanadora... e eu sempre era a lanadora 
na escola antiga.
- Ela quer voc para a posio?
- O time treina todos os dias depois das aulas. A prxima partida ser daqui a uma semana. Todos os treinos so importantes para mim.
- Entendo. E disse isso a Pamela?
Peter franziu as sobrancelhas, com uma expresso preocupada nos olhos.
- Disse.
- Estou entendendo agora.
Ele se levantou, foi at a janela, permaneceu ali por algum tempo. Virou-se e encaminhou-se para a porta.
- E se eu pudesse marcar as aulas de piano para a noite, depois do jantar? Acha que conseguiria fazer tudo, sem negligenciar os deveres da escola?
- Acho.
Falei sem hesitar, embora no tivesse a menor idia se seria capaz.
- Teria de ser assim apenas at o final da temporada de softball.
Pela maneira como ele falava, percebi que j planejava a melhor maneira de persuadir Pamela.
- Mas pensei que o professor nos prestava um favor e s estaria disponvel logo depois da escola.
Peter piscou um olho para mim.
- Podemos negociar. Afinal,  isso o que fao para ganhar a vida. O segredo  nunca entrar em pnico, mas recuar, respirar fundo e procurar novas portas para entrar 
na mesma casa. Assim, voc entra no time, Pamela fica satisfeita por estar fazendo o melhor para voc, e
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at o professor se sente mais feliz. Darei um jeito. Gosta da idia?
Acenei com a cabea.
- timo. No se preocupe mais, Brooke. Na maioria das vezes, fazemos com que nossos problemas paream maiores do que so. Quando os analisamos com calma, compreendemos 
que a maioria dos nossos drages so criados por nossa prpria imaginao. Quero ouvir mais sobre o seu home run depois.
Peter me ofereceu um enorme sorriso da porta e se retirou.
Soltei um suspiro de alvio. Tinha sorte por ter algum como Peter como pai, pensei. No  de admirar que ele seja to bem-sucedido. Pensa em solues e idias muito 
depressa. Provavelmente poder at ser o presidente dos Estados Unidos.
Na hora do jantar, porm, eu ainda me sentia bastante nervosa. Pamela sentou com os lbios comprimidos, as costas rgidas. Ocupei meu lugar em silncio, com medo 
de olhar para ela. Sempre que o fazia, ela me lanava olhares furiosos.
- J est tudo acertado com o professor Wertzman - anunciou Peter, feliz.
- Deve-me um pedido de desculpas pelo pssimo comportamento - murmurou Pamela, levantando os olhos para me focalizar. - Ainda mais na presena de algum como o professor 
Wertzman. Ele freqenta as casas das famlias mais importantes, e eu no gostaria que falasse mal de ns.
- Ele sabe que  melhor no fazer isso, Pamela - comentou Peter.
- No  essa a questo.
- Desculpe - murmurei. - Fiquei transtornada. Foi uma surpresa e tanto.
- Procuro conseguir as melhores coisas para voc, Brooke, mas me fez parecer uma tola.
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- Desculpe.
- Est tudo bem agora - interveio Peter. - Vamos apenas apreciar um maravilhoso jantar e ouvir Brooke relatar seu primeiro dia na Agnes Fodor.
- Ela poderia ter tomado a primeira aula hoje - insistiu Pamela, a voz mais baixa, recuando como um motor de carro que rateia at parar.
- Brooke dar um jeito para compensar, tenho certeza - declarou Peter. - Fale-nos sobre a escola, Brooke.
Descrevi as aulas, os professores, algumas colegas. Pamela mostrou-se mais interessada nas amizades que eu fizera. Queria saber a que famlias as garotas pertenciam. 
Mas eu no sabia muita coisa a respeito. No pude fornecer as informaes que ela queria.
- Deve fazer mais perguntas, Brooke - recomendou ela. - Mostre que est interessada. Mesmo que no preste muita ateno.
Peter riu.
- Pamela  uma artista em matria de conversa social. Todas as pessoas querem conversar com ela. No final da noite, no entanto, ela no  capaz de me relatar a metade 
do que disseram. Ningum parece perceber. Portanto, suponho que no se importam.
Ele concluiu com outra risada. Por que algum no se importaria se voc no prestasse ateno s suas palavras? Que pessoas compareciam quelas festas importantes?
- Agora, Brooke, fale-nos sobre seu home run - pediu Peter.
Pamela sorriu e comeou a comer, enquanto eu descrevia a jogada e o que acontecera depois.
- Os esportes femininos so muito mais importantes agora do que no seu tempo, Pamela - explicou Peter.
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Isso a deixou furiosa outra vez.
- Quando acrescentarem tnis, golfe, beisebol ou basquete ao concurso de Miss Amrica, pode me avisar - comentou ela, sarcstica.
Peter riu, mas parou de falar sobre o assunto.
Os dias subseqentes foram mais difceis do que eu jamais imaginara. Havia muito trabalho extra que eu tinha de fazer para alcanar o resto da turma, alm dos deveres 
do dia-a-dia. O treino de softball era a nica coisa que eu aguardava com ansiedade. Meu entusiasmo deixava a treinadora Grossbard com um sorriso feliz. Mas ela 
era muito exigente em termos fsicos. No demorou muito para que a treinadora determinasse que eu seria a lanadora inicial e a ltima batedora. S uma garota se 
mostrou insatisfeita com isso: Cora Munsen, que era antes a ltima batedora do time.
- Voc apenas teve uma jogada de sorte - comentou ela, no vestirio. - No  melhor do que eu como batedora.
No queria que ela me odiasse, e por isso concordei.
- Farei tudo o que a treinadora quiser. O time  que  importante.
- Como se voc realmente se importasse...  igual s outras. Quer toda a glria.
- Isso no  verdade, Cora.
Ela sacudiu a cabea e se afastou.
A maioria das garotas ria de Cora porque ela era muito "grande, mas nenhuma ousava fazer qualquer comentrio na sua frente. Parecia que Cora podia derrubar qualquer 
uma com um golpe dos braos poderosos. Descobri que a haviam apelidado de Cora Munch, de mastigar, porque ela comia muito. At dava um jeito de comer s escondidas 
nos intervalos das aulas. Conclu que ela ficaria bem bonita se emagrecesse, mas tive medo de lhe dizer.
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Depois do treino de softball, eu tinha de voltar correndo para casa, a fim de me preparar para o jantar e tentar fazer alguns deveres. De vez em quando no tinha 
tempo de tomar uma chuveirada antes de sentar para a aula de piano. O professor Wertzman no parecia se importar. Ele prprio tinha um cheiro estranho, um odor que 
quase me deixava nauseada, porque sentvamos juntos no banco do piano. Eu bem que tentava virar o rosto para o outro lado ou prender a respirao, mas era difcil 
no inalar aquele cheiro ranoso, azedo e repulsivo. Notei que ele usava a mesma camisa durante a semana inteira. Na sexta-feira o colarinho tinha manchas amarelas 
e marrons, nos pontos em que encostava no pescoo.
Quando me dava instrues, ele costumava contrair os olhos, que se transformavam em fendas mnimas. s vezes, quando ficava muito nervoso com um erro que eu cometia, 
Wertzman salpicava o piano com saliva, para depois limpar com a manga do brao esquerdo. Pamela entrava na sala para assistir  aula de vez em quando. Nessas ocasies, 
a expresso dele se tornava suave, ressurgia a voz gentil e atenciosa do professor. Quando estvamos a ss, ele falava num tom rspido, tinha pouca pacincia, e 
se queixava a todo instante da dificuldade que tinha para transformar um seixo numa prola. Eu sempre tinha vontade de dizer que nunca lhe pedira para realizar qualquer 
milagre, mas reprimia o orgulho e deixava-o me aoitar com zombadas e crticas.
Uma noite, quando Peter estava lendo na sala de estar, parei para conversar.
- Provei caviar... e detestei.
- Como? - Ele me fitou aturdido, mas depois sorriu. - Ah, entendi...
- Nunca serei uma boa pianista. At o professor
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diz que meus dedos no so apropriados. Acha que sou vigorosa demais, que estaria melhor tocando tambor ou fazendo trabalhos de carpintaria.
- Foi o que ele disse? - Peter soltou uma risada. - Agente apenas mais um pouco, at eu persuadir Pamela a pensar em algo melhor.
- No quero participar de concursos de beleza.
- No haver mal algum se entrar em um ou outro. Considere como uma nova experincia.
- Ningum mais na escola vai entrar em qualquer concurso de beleza... e h garotas ali que so muito mais bonitas do que eu. Vo rir de mim, se divertir  minha 
custa.
- Talvez voc ganhe. E neste caso ningum vai rir de voc.
A maneira como Peter falou me fez acreditar que tinha alguma chance. Talvez Pamela estivesse certa a meu respeito, no final das contas.
- Voc e Pamela vo ao jogo no sbado?
Eu mencionara o jogo durante toda a semana, mas Pamela fingira no ouvir.
- Claro. - Ele pensou por um momento. - E devo tambm levar uma filmadora. Mas no espere que eu me torne um desses pais fanticos da Little League.
Soltei uma risada.
Quando Peter falou sobre o jogo ao jantar, naquela noite, Pamela declarou que no iria.
- rode imaginar que danos causam  pele ficar sentada sob aquele sol horrvel, envolta por toda aquela poeira? Quando voc chegar em casa, Brooke, vai entrar direto 
numa banheira, limpar toda a poluio dos poros, lavar os cabelos com o maior cuidado.
Ela pensou por um instante. Levantou-se subitamente e contornou a mesa.
- Deixe-me ver suas mos, Brooke.
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Ergui as palmas. Pamela pegou-as, passou os dedos por cima.
- Como eu pensava - disse ela a Peter. - A pele est ficando spera. Daqui a pouco ela ter calos!
-  mesmo?
Peter parecia divertido. Percebi que ele fazia um esforo para no sorrir.
- Venha at aqui para sentir.
- Acredito em voc.
- Isso  um absurdo. Uma filha com mos que parecem pertencer a um trabalhador braal. Quero que d um pulo ao meu quarto depois do jantar, Brooke. Tenho uma loo 
para as mos que ter de usar sempre. Esfregue-a quatro ou cinco vezes por dia.
- Quatro vezes por dia? Quer dizer que terei de usar at mesmo na escola?
- Claro. Por quanto tempo mais esse absurdo de beisebol vai continuar?
Pamela comeava a ficar irritada.
- S restam alguns jogos. Entrei quase no final da temporada.
- Ainda bem.
Ela voltou  sua cadeira. Tive medo de avisar que j concordara em fazer um teste para o time de basquete da escola. A treinadora me vira praticando lances livres 
com algumas alunas mais velhas e me convidara para fazer um teste na semana seguinte. Alm disso, a treinadora Grossbard achava que eu poderia ser escolhida para 
o jogo com as melhores da temporada naquele ano. Neste caso, teria de fazer treinos especiais depois que terminasse o campeonato de softball. Eu sabia que s era 
boa em esporte... e no tencionava desistir.
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Peter decidiu me levar ao jogo no sbado. Eu usava o uniforme quando desci correndo a escada. Pamela esperava sua massagista, mas ainda se encontrava l embaixo, 
dando algumas instrues a Joline sobre um novo suco, com ervas que supostamente retardavam o processo de envelhecimento. Assim que me viu na escada, ela iniciou 
uma srie de queixas.
-  esse o uniforme? Est vestida como um garoto. Por que no usam pelo menos uma saia?
- Elas no podem usar saia, Pamela - explicou Peter, rindo.
- Por que no?
- s vezes as jogadoras precisam deslizar pelo cho para alcanar a base. Por isso, precisam de roupas mais prticas.
- Por que ento no usam uma combinao de cores mais aceitvel?
- So as cores da escola - informei.
- A pessoa que as escolheu no era muito criativa. No esquea o que eu disse que deve fazer assim que voltar para casa.
Pamela subiu a escada, resmungando baixinho.
- No fundo, Pamela se orgulha de voc - declarou Peter, tentando me tranqilizar. - Acontece apenas que os esportes nunca foram importantes para ela.
A caminho do campo, ele falou sobre seu interesse por esportes, como praticara o futebol americano e ainda jogava tnis.
- E sou um bom tenista - gabou-se Peter. - Um dia desses vou lev-la ao clube. Poderemos jogar uma partida. Gosta da idia?
- Claro. Sempre quis jogar tnis, mas nunca tive uma quadra  disposio. Minha antiga escola no tinha nenhuma. Mas a Agnes Fodor tem.
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- Isso  timo. O tnis  um esporte pelo qual Pamela pode se interessar. Ela gosta dos trajes.
Os trajes? No tinham nada a ver com os motivos pelos quais eu gostava de jogar ou assistir a um jogo. Comecei a me perguntar se Pamela e eu poderamos algum dia 
compreender uma  outra. E isso no era importante? Ter uma me que compreendia seus sonhos e desejos, suas esperanas e anseios?
Ao nos aproximarmos da escola, pensei no time que enfrentaramos hoje. Estava invicto. Suas jogadoras pareciam mais duras, mais fortes e mais determinadas. A principal 
batedora era uma afro-americana alta, que dava a impresso de que podia rebater a bola atravs de qualquer pessoa no campo. Percebi que as garotas do meu time recuaram 
quando comecei a arremessar, prevendo uma rebatida direta. Mas tratei de aproveitar a altura da batedora adversria, usando lanamentos baixos. Ela errou dois. O 
terceiro saiu torto. Nossa jogadora na primeira base conseguiu pegar a bola sem muita dificuldade. Minhas companheiras aplaudiram. O nervosismo que demonstravam 
no incio do jogo se dissipou.
Eu me sentia mais forte a cada lanamento. De vez em quando olhava para a arquibancada, e via Peter sorrindo. Ele trouxera sua filmadora nova e registrava todos 
os lances do jogo. Rebati trs bolas naquele dia, uma delas uma tripla, com duas jogadoras nossas nas bases. Foi o que nos deu a vitria.
As garotas do outro time estavam atordoadas. Minhas companheiras se agruparam ao meu redor, exultantes como se tivssemos vencido o campeonato nacional. Ao deixarmos 
o campo, ouvi a outra treinadora perguntar a Grossbard onde descobrira aquela nova e sensacional jogadora. Na volta para casa, Peter estava excitado.
- Espere s at eu mostrar a fita a Pamela. Aquela
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sua ltima rebatida foi um primor. Conseguiu meter a bola entre duas jogadoras. Como fez?
- A treinadora na minha antiga escola me ensinou a virar os ps para rebater a bola na direo certa.
Peter ficou bastante impressionado. Pela primeira vez desde que eu fora morar com ele e Pamela, senti orgulho de mim mesma, confiante de que ainda poderia fazer 
com que se orgulhassem de mim.
Quando chegamos em casa, Pamela ainda estava de molho no banho de leite, algo que sempre fazia depois de uma massagem. Peter foi lhe falar sobre o jogo. Tomei uma 
chuveirada, lavando os cabelos, vesti roupas limpas. Peter queria nos levar a um restaurante elegante para comemorar. Mas primeiro queria mostrar a Pamela alguns 
dos principais lances do jogo.
Esperei l embaixo, na sala da famlia. Os dois finalmente apareceram, Pamela radiante e bela. Peter ps a fita no aparelho e ligou a televiso.
- Lavou os cabelos com o xampu que comprei para voc? - perguntou Pamela.
Era bvio que ela no se importava com o meu desempenho no jogo.
- Lavei.
Pamela passou os dedos por meus cabelos e acenou com a cabea.
- Voc no compreende os danos que o sol pode causar a seus cabelos.
- Usei um bon.
- Mas no cobre toda a sua cabea, no ?
- L est ela! - exclamou Peter. - Veja essa jogada, Pamela!
Era o momento em que eu rebatera a primeira bola, lanando para a esquerda. Pamela se limitou a balanar a cabea.
- Esfregou a loo para a pele nas mos?
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Eu tinha esquecido, mas inclinei a cabea numa resposta afirmativa assim mesmo. Ela contraiu os olhos, desconfiada, passou os dedos por minhas mos.
- Esto ressequidas.
- Este  o momento em que ela derrota a melhor batedora do time adversrio. Observe seus trs lanamentos.
- Tem de subir agora e passar a loo nas mos.
- Est bem.
- Veja agora, Pamela! Essa foi a jogada decisiva, a que ganhou o jogo!
- Ela est desenvolvendo msculos - murmurou Pamela, com uma careta. - Que garota da sua idade tem msculos? O esporte vai deix-la masculinizada, Brooke. Por que 
insiste em se dedicar a essas atividades absurdas?
Senti um aperto no corao. Esperava que Pamela no fosse mais contra a minha participao em esportes depois de assistir ao meu desempenho, mas nada do que Peter 
mostrava na fita parecia impression-la.
- Estou com fome, Peter - murmurou ela.
- Estamos prontos. O que voc acha, Pamela? Temos uma pequena Babe Ruth, no concorda?
- Eu preferia ter uma pequena Cindy Crawford. Suba depressa e passe a loo nas mos, Brooke.
Olhei para Peter e depois deixei a sala. Os dois esperavam no carro quando voltei.
- Cuidado com sua postura - advertiu Pamela, pela janela do carro, quando me aproximei. - Anda encurvada demais. Por causa dos seus ombros. Esto muito grandes, 
provavelmente de balanar aquele enorme pedao de pau.
-  o que se chama de basto - murmurei, ao entrar no carro.
Ela me lanou um olhar irritado. Depois, viu seu
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reflexo no vidro e preocupou-se com um ponto vermelho na face direita por todo o percurso at o restaurante.
No houve mais nenhum comentrio sobre o meu jogo de softball. Por tudo o que Pamela se importava, eu poderia ter errado em todas as vezes que peguei o basto.
At mesmo a sra. Talbot, do orfanato, costumava se mostrar mais orgulhosa de mim. Antes de o jantar terminar, olhei para Pamela e perguntei:
- Alguma vez jogou softball, Pamela?
- Eu? Claro que no! - Ela fungou, desdenhosa. - Jamais!
- Ento como sabe que no gosta?
- O que voc disse?
-  como dizer que no gosta de caviar sem nunca ter provado.
Pamela olhou para Peter.
- O que ela est querendo dizer?
Peter sorriu, mas eu no sorri de volta. E logo, pela primeira vez, divisei uma certa preocupao em sua expresso, quando olhou para Pamela e depois para mim.
Desviei os olhos. Pensei na sensao maravilhosa que me envolvera quando acertara em cheio aquela rebatida. Todas as loes, ervas, vitaminas e xampus no podiam 
me fazer sentir melhor comigo mesma do que experimentara naquele momento. O que aconteceria se Pamela me obrigasse a parar de jogar? Algum dia eu voltaria a me sentir 
bem comigo mesma?
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7 - Prova de fogo

Apesar da minha falta de entusiasmo e da averso ao professor Wertzman, consegui tocar uma tosca interpretao de "When the Saints Come Marching In" cinco semanas 
depois de comear as aulas. Pamela achava que isso demonstrava que eu era bastante talentosa para me apresentar no primeiro concurso.  medida que aumentava a realidade 
de minha participao de fato nesse evento, ela decidiu comear a me instruir sobre como fazer o que chamava de Andar na Passarela.
- A nica diferena  que em vez de apresentar a nova moda de algum estilista, estar na verdade apresentando a si mesma - explicou ela.
Usamos o longo corredor no primeiro andar da casa. Pamela criticou no mesmo instante o tamanho dos meus passos.
- Voc est se arrastando como um rob, em vez de andar. Tem de deslizar sobre aquele palco, flutuar. Pense em si mesma como feita de ar. Foi assim que me ensinaram. 
Suave, suave, feminina, suave... - Ela entoava enquanto eu repetia o percurso da porta da frente  sala de jantar. - Deslize. No mexa tanto os braos. Relaxe. Abra 
as mos. No pode andar com os
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punhos cerrados. No est sorrindo, Brooke. Sorria. Pare!
Pamela pensou por um momento.
- No pode parecer entediada ou constrangida, Brooke. A beleza deve ser inflamada pelo entusiasmo.  o lema que me ensinaram. Voc tambm deve aprendlo e viver 
de acordo.
- Eu me sinto ridcula - murmurei.
- Deve superar isso. O que est fazendo no tem nada de ridculo.  profissional. Os juizes devem sentir que voc tem autoconfiana.
- Mas meu lugar no  num concurso de beleza. No sou bonita.
Ela ergueu os olhos para o teto e deu a impresso de que contava at dez.
- Muito bem, Brooke - disse ela em seguida, a voz mais suave. - Venha comigo.
Pamela seguiu apressada para a escada. Esperou que eu a alcanasse. Pegou minha mo e levou-me para seu quarto.
- Sente ali - ordenou ela, apontando para a mesa de maquilagem. Obedeci, e ela continuou: - Contemple-se no espelho. Em sua opinio, quais so as suas piores caractersticas?
- Todas.
- Errado. Voc possui uma enorme beleza em estado bruto. Agora, faa o que eu mandar. - Pamela pegou seus lpis de lbios. - Os lbios ousados esto de volta. Nem 
toda jovem pode usar uma sombra mais ousada nos olhos, mas a maioria pode sem dificuldade usar uma cor mais ousada nos lbios.
Ela sorriu.
- Se voc soubesse alguma coisa sobre maquilagem e rostos, compreenderia que no possui o que chamamos de lbios inchados. Por isso, deve evitar as tonalidades
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escuras e foscas. Precisa de cores com mais intensidade. As cores escuras faro com que sua boca parea menor. Primeiro, abra a boca. - Ela demonstrou. - Quero delinear 
seus lbios por completo. Fiz o que ela mandara. Pamela comeou.
- timo. - Ela deu um passo para trs, a fim de me avaliar. - Gosto de misturar e comparar batons. Pela manh, comearei com um batom fosco. Mais tarde, em vez de 
acrescentar mais desse batom, o que pode dar a impresso de uma crosta, passarei um brilho para clarear, ou um protetor para os lbios. s vezes experimento um batom 
umidificador ou um brilho colorido.
Pamela no parava de falar enquanto trabalhava. Como virara meu rosto em sua direo, eu no podia ver o que ela fazia. Mas sabia que seu trabalho era de uma artista. 
Ao final, ela disse:
- Pronto.
Virei-me e olhei com surpresa para o meu rosto. Meus lbios haviam se tornado proeminentes.
- Minha boca parece to diferente... Pamela riu.
- Audrey Hepburn, que tinha lbios finos, costumava deline-los um pouco acima da linha superior. Cada mulher tem seus pequenos truques.
Ela estudou minha imagem no espelho por um momento.
- Creio que voc pode usar um delineador de olhos escuro.
Pamela continuou a maquilar meu rosto, passando p-de-arroz, ajeitando os olhos, at conseguir o que queria. Disse para eu me olhar de novo no espelho.
- E ento, Brooke?
- Pareo to...
- Bonita?
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Tive medo de usar essa palavra. Ousaria pensar assim?
- Diferente. Estou bonita?
- Venho lhe dizendo isso desde o nosso primeiro encontro. Agora que est maquilada e sabe como pode parecer, deve se sentir mais tranqila e confiante. Quero que 
faa um pouco mais de maquilagem todos os dias, Brooke, a fim de se acostumar.
- Est querendo dizer que devo me maquilar para ir  escola?
- Claro.  o motivo pelo qual comprei tudo isto para voc e mandei trazer para c antes da sua chegada. Quero que prepare seu rosto como se estivesse entrando num 
concurso de beleza. No fundo, a vida  isso mesmo para ns, um permanente concurso de beleza.
- Mas nenhuma das outras garotas costuma se maquilar. Vo pensar que tento parecer mais velha para me dar com as alunas das ltimas sries.
- Deixe elas pensarem o que quiserem. No possuem a metade da beleza que eu... que voc tem. E agora vamos descer para praticar o andar na passarela.
Ela me fez desfilar de um lado para outro do corredor por quase outra hora, usando msica. Ensinou como eu devia me virar, parar, olhar para a audincia, como me 
mostrar sedutora ou inocente.
- Cada concorrente, Brooke, cada modelo,  na verdade uma atriz. Voc tem de assumir uma personalidade. Pense em si mesma como algum especial, e seja essa pessoa 
por algum tempo. s vezes eu me imaginava como Marilyn Monroe, em outras era mais sutil, uma Ingrid Bergman ou uma Deborah Kerr. Hoje em dia todas as garotas de 
sua idade tentam ser como uma daquelas horrveis Spice Girls, mas voc ser diferente. Ser... eu. - Pamela riu. - Continue a me estudar durante todo o tempo. Vai 
acabar sendo como eu.
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As palavras me assustaram. Pamela queria mesmo me transformar nela. Meus talentos e desejos no tinham a menor importncia. No conseguia entender... por que ela 
no podia gostar de mim como eu era? E se ela nem sequer gostava de mim, como poderia vir a me amar?
No dia seguinte comecei a me sentir um pouco melhor quando compreendi que pelo menos as garotas na escola gostavam de mim pelo que eu era. No nibus, naquela manh, 
todas queriam sentar ao meu lado, conversar sobre o jogo. Na sala de aula, o sr. Rudley, que admitiu jamais ter comparecido a um evento esportivo da escola, disse 
que ouvira o comentrio de que deveria assistir  nossa prxima partida de softball. A escola tinha uma estrela. Fiquei corada da cabea aos ps. Quando olhei para 
as outras, descobri que Heather me fitava fixamente. Ela parecia furiosa, o que fez meu corao bater forte.
No almoo, recebi os convites mais diversos. Fui convidada a visitar colegas, informada sobre festas e eventos iminentes, recebi propostas para ingressar em clubes. 
Lisa Donald, uma das melhores tenistas da escola, ofereceu-se para me dar aulas na quadra de sua famlia.
- Voc poderia aparecer no prximo fim de semana, Brooke. Receberei vrios amigos, inclusive alguns garotos da Brandon Pierce.
Eu sabia que era uma escola masculina nas proximidades.
- Quem voc conhece na Brandon Pierce? - indagou Heather.
- Meu primo Harrison, que vai levar um amigo. Podemos fazer um jogo de duplas.
Todas as garotas se mostraram invejosas. Tive de admitir que nunca antes jogara tnis.
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- Nunca? Como  possvel? - perguntou Heather. - Seus pais no tm uma quadra em casa?
Pela maneira como ela falava, parecia que uma quadra de tnis era uma coisa to corriqueira quanto um banheiro.
- Claro que tm.
- E ento?
- S que nunca joguei.
- Por que no joga se tem uma quadra em casa? - insistiu ela, adiantando-se para quase encostar o rosto no meu.
- Que diferena isso faz? - interveio Lisa. - Ela vai aprender agora com a melhor professora... eu.
As garotas riram, mas Heather continuou a me fitar com seus olhos pequenos e brilhantes. Helen Baldwin interps-se na sua frente para me perguntar alguma coisa sobre 
o nosso dever de estudos sociais. Depois, Helen passou a falar sobre Harrison, o primo de Lisa.
- Ele  um manaco sexual. - Todas as outras se viraram para ela, prestando a maior ateno. - No  mesmo, Lisa?
- Acho que ele pensa mais em sexo do que os outros garotos. Quando tnhamos sete e oito anos, Harrison s queria brincar de mdico sempre que nos encontrvamos.
- E voc brincava? - indagou Eva.
- No. Mas uma ocasio ele me perseguiu por toda a casa e os jardins, tentando me persuadir a tirar a calcinha.
- Eu no me importaria se ele tirasse a minha - comentou Rosemary, provocando risadas.
- Voc nunca se incomoda - acusou Heather. - Mas pare de bancar a gostosa.
- Ele  bonito - disse Lisa. - Voc mesma admitiu isso, Heather. E acrescentou que gostaria que Harrison olhasse para voc.
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- No falei nada disso, sua mentirosa.
- O que disse ento? - insistiu Lisa. Heather olhou para as outras.
- Comentei que ele perdia seu tempo com aquela Paula Dworkins, mais nada.
- Aposto que ele vai gostar de Brooke - declarou Rosemary.
As garotas se viraram para mim.
- Por que ele gostaria de mim? - indaguei.
- Harrison gosta de qualquer garota nova por um dia ou dois - explicou ela. - Mas depois que ele observar voc jogando softball, tenho certeza de que vai se apaixonar.
-  verdade... e com toda essa maquilagem que est usando, ser um alvo fcil - alfinetou Heather.
As garotas riram mais uma vez, Heather mais alto do que as outras.
- Ela est brincando - disse Lisa. - Mas Harrison gosta mesmo de garotas que praticam esportes. Sei, porque ele me contou.
Todas se calaram, enquanto ela acrescentava:
-  por isso que quero que voc aprenda a jogar tnis direito o mais depressa possvel. Mas imagino que no precisar de muito tempo.
- Parece estranho que seu pai nunca tenha lhe ensinado - comentou Heather. - No se d bem com ele?
- No se meta na vida das outras - murmurou Helen.
- Claro que nos damos bem. Acontece apenas que ele  muito ocupado.
Senti-me contente por desviar a conversa da horrvel maquilagem que Pamela me obrigara a pr naquela manh. Heather sorriu e comentou:
-  exatamente o que meu pai diz cada vez que peo para fazer alguma coisa comigo.
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- A nica diferena  que o pai de Brooke no est mentindo - disse Eva.
As garotas desataram a rir mais uma vez. Tive de sorrir. Heather me fitava. Se seus olhos pudessem disparar dardos, eu ficaria cheia de buracos.
O resto da semana transcorreu sem problemas. Todas se mostravam mais excitadas do que nunca nos treinos de softball. Consegui me sair bem em duas provas. Os professores 
elogiaram meu esforo. A sra. Harper chegou a me parar no corredor para declarar que eu vinha fazendo uma tima transio.
- Continue assim - murmurou ela.
Sua expresso era to intensa que mais parecia uma advertncia. Agradeci e me afastei apressada.
Em casa, fazia as aulas de piano com uma atitude de resignao. Chegara  concluso de que era uma coisa que tinha de fazer, como ir ao banheiro. O professor Wertzman 
no achava que eu melhorara como pianista, mas j no criticava e se queixava tanto quanto antes.
Peter passou a maior parte da semana ausente, tratando de um caso importante na cidade de Nova York. As conversas sobre a escola e outras coisas importantes que 
aconteciam no mundo desapareceram do jantar. Pamela continuou a usar a refeio como uma sala de aula, desenvolvendo minha educao sobre as maneiras apropriadas 
 mesa. Ficou impressionada por eu ter sido convidada a ir  casa de Lisa Donald para almoar e jogar tnis. Por conta prpria, descobrira que o pai de Lisa era 
um dos Donald que possuam a loja de departamentos local.
- Eu sabia que voc faria amizade com pessoas de qualidade, Brooke.
O que ela queria dizer com aquilo... pessoas de qualidade? O que proporcionava a uma pessoa uma
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qualidade superior  de outra? Eu no constatara que as garotas na Agnes Fodor eram mais simpticas do que as minhas colegas na escola pblica. Tinham os mesmos 
complexos, problemas, preocupaes e queixas.
Apesar dos elogios retumbantes da sra. Harper, eu descobrira que suas alunas, suas garotas perfeitas, no eram to perfeitas assim, no final das contas. Eram apenas 
mais sutis e mais insidiosas nas coisas que faziam. Quando o professor deixava a sala, elas colavam. Passavam bilhetes durante as aulas. At fumavam no banheiro, 
mas sempre junto da janela, a fim de soprarem a fumaa para fora. Depois, jogavam as guimbas no vaso e puxavam a descarga. O grafite no era desconhecido: algum 
escreveu "Brooke usa um suporte atltico" na porta do meu armrio no ginsio. A treinadora Grossbard teve de pedir ao zelador que arrumasse um detergente forte para 
limpar. Ningum contou  sra. Harper. Era como se ela tivesse de ser protegida de qualquer notcia desagradvel, para poder continuar a acreditar que suas garotas 
eram perfeitas.
Peter voltou de Nova York na noite de sexta-feira. Pamela mandou que eu demonstrasse meu andar de passarela para ele. Obrigou-o a sentar numa cadeira antiga de encosto 
alto no corredor, observando como se fosse um juiz num concurso de beleza. Eu esperava que Peter casse na gargalhada quando comecei a andar, mas sua expresso foi 
diferente... eu nunca o vira me fitar com tanta intensidade antes.
- E ento? - indagou Pamela, assim que completei a ltima volta.
- Espantoso! Fez um trabalho incrvel, Pamela. Ela parece... mais velha.
- Claro que sim. Est mais madura, mais sofisticada e confiante. E foi convidada para almoar na casa dos Donald amanh.
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Eu no achava to importante assim, mas Pamela me fez descrever como fora feito o convite, a proposta de Lisa para me ensinar a jogar tnis, os meninos ricos que 
se juntariam a ns para o jogo e o almoo. Peter assumira uma expresso sria, mas havia um ar divertido em seus olhos.
- Voc no tem um jogo neste sbado? - perguntou ele.
- Mesmo que ela tivesse um jogo - interveio Pamela - iria  casa dos Donald.
Claro que no, pensei, mas achei melhor deix-la pensar o que quisesse.
- No. Nosso prximo jogo ser em casa, no outro sbado. Voc vai?
- Tentarei ir - disse Peter, abstendo-se de fazer uma promessa. - Pela maneira como o caso Jacobi est se desenvolvendo, no sei quando terei tempo livre este ms. 
Pensamos que aceitariam um acordo, mas eles decidiram nos pressionar.
Pamela no pediu mais explicaes. Percebi que durante todo o tempo em que morava ali nunca a ouvira perguntar sobre o trabalho de Peter, nem demonstrar qualquer 
interesse por seus casos. Isso s ocorria quando havia um cliente que a interessava; e mesmo nesse caso, Pamela se mostrava mais curiosa sobre a pessoa do que sobre 
o caso.
- Qual  o problema com esse Jacobi? - perguntei.
- O caso  que se chama Jacobi - explicou Peter. - No  um problema com uma pessoa.
- Ahn... - murmurei, sentindo-me uma idiota. Para me fazer sentir melhor, Peter comeou a falar sobre o caso. Mas Pamela interrompeu para perguntar se ele j me 
arrumara um patrocinador.
- O que isso significa? - indaguei. - Por que preciso de um patrocinador?
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- Para o concurso de beleza - disse Pamela. - Cada garota tem de ser patrocinada... e no pode ser por sua prpria famlia. A companhia pagar todas as suas despesas. 
Claro que no precisamos disso, mas  assim que se faz.
- Quem poderia me patrocinar?
- Diversas empresas - respondeu ela, irritada. - E ento, Peter?
- Falarei com Gerry Lawson amanh. Ele j me deu uma aprovao preliminar. No se preocupe.
Pamela relaxou. Aquilo ia mesmo acontecer? Eu participaria de um concurso de beleza? Logo eu? Experimentei a sensao de que alguma coisa dentro de meu peito fazia 
ccegas no corao com uma pluma. Mas tive medo de deixar transparecer qualquer relutncia, pois isso deixaria Pamela de mau humor e agressiva.
No sbado, Peter levou-me  casa de Lisa. Pamela postou-se atrs de mim  mesa de maquilagem, para ter certeza de que eu faria tudo direito.
- Quem sabe que pessoas voc poder encontrar l? - murmurou ela.
Pamela foi conosco, para poder ver a casa dos Donald. Era maior do que a nossa, o que eu no imaginava que fosse possvel. Tinha mais terreno, a piscina era maior, 
contava com uma casa de hspedes e duas quadras de tnis de argila. Pamela comentou que a casa era ao estilo Renascimento grego. Manifestou sua inveja pela porta 
da frente recuada.
- Eu queria ter uma porta assim - lamentou-se ela. - Temos de reformar a fachada da nossa casa.
- No h nada de errado com a nossa entrada, Pamela - protestou Peter.
Ela ficou contrariada. Mas logo se reanimou quando sa do carro. Disse que eu devia me comportar direito, lembrar todas as boas maneiras que me ensinara.
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- Especialmente quando estiver comendo, Brooke. Acenei e me afastei apressada. Lisa abriu a porta ao toque da campainha. J usava um traje de tenista.
- Ainda bem que voc chegou mais cedo. Venha comigo.
Ela pegou na minha mo e me puxou pela casa enorme. Pude apenas vislumbrar salas grandes, mveis luxuosos e muitos quadros. A decorao era diferente da nossa, com 
uma aparncia mais antiga.
Samos por uma porta lateral e seguimos para a quadra de tnis. Havia um aparelho instalado num lado.
- O que  aquilo?
- Papai comprou para treinarmos a devoluo do servio. J vai ver como funciona.
Ela me entregou uma raquete, ressaltando que era uma das melhores. Depois me mostrou como segur-la, os movimentos para bater na bola. Estava excitada com a idia 
de me ensinar.
- Jamais conheci algum que nunca tivesse sequer segurado uma raquete de tnis, Brooke.
Mas ela no me interrogou, como Heather faria. Apesar de praticamente crescer com uma raquete de tnis na mo, Lisa no era uma boa jogadora. No demorei muito para 
dominar os movimentos bsicos. Depois de uma dzia de rebatidas, passei a desenvolver um servio razovel. Logo descobri que tudo o que precisava fazer para derrot-la 
era jogar a bola para um lado e depois para o outro com um pouco mais de fora. Mas tratei de me controlar, porque percebi que Lisa comeava a se irritar.
- Voc  atltica demais. - Ela fez uma pausa, fitando-me com uma expresso desconfiada. - Estava mentindo? J tinha jogado tnis antes?
- No. - Sacudi a cabea. - Nunca tinha jogado.
- Parece estranho, ainda mais agora que posso ver como voc joga.
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Compreendi que ela no ia acreditar em mim.
- Juro que nunca tinha jogado.
Lisa acabou aceitando. De qualquer forma, no houve mais tempo para conversar a respeito. Harrison e seu amigo gritaram para ns da frente da casa. Atravessaram 
o gramado para as quadras de tnis.
As garotas na escola tinham razo: Harrison era mesmo um rapaz bonito, de cabelos escuros. Era alto, as pernas compridas e esguias, saindo de um short de tnis branco. 
Usava uma camisa plo branca, com filetes pretos nas mangas e na gola. Ao chegarem perto, vi que Harrison tinha sobrancelhas espessas e escuras. Os olhos eram quase 
pretos, num rosto estreito com malares salientes e uma boca forte. Exibia um sorriso malicioso nos lbios firmes e mantinha um ar arrogante, como faria um rapaz 
que sabia que era bonito e rico.
Seu companheiro era mais baixo, corpulento, cabelos claros, o rosto redondo e olhos azuis. O lbio inferior parecia mais grosso que o de cima. Havia uma certa suavidade 
em suas faces e queixo que o faziam parecer mais infantil do que bonito.
-  esta a sua Mickey Mantle, a grande jogadora de beisebol? - indagou Harrison, rindo.
Seu amigo dava a impresso de que seu rosto era de cera, algum gravando ali um sorriso.
- Brooke, meu primo Harrison - apresentou Lisa.
- Oi - disse ele. - Este  Brody Taylor. J conhece minha prima Lisa.
- J, sim - murmurou Brody.
-  to boa no tnis quanto  no softball? - perguntou-me Harrison.
- No. Acabo de ter minha primeira aula.
- De Lisa? - Ele riu. -  uma cega ensinando a uma cega.
- Acha mesmo? - Lisa olhou para mim e sorriu. Por que no comeamos com homens contra mulheres?
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- No teremos adversrias - gabou-se Harrison.
- Estamos dispostas a correr o risco.
- Qual  a aposta?
- O que voc quer apostar?
- A virgindade?
Lisa ficou vermelha. Brody soltou uma risada, quase uma fungadela, com o ar sendo expelido pelo nariz e o corpo tremendo.
- Voc ainda  virgem? - contra-ataquei.
Era como se estivssemos jogando tnis com as palavras. Foi a vez de Harrison ficar vermelho.
- Vamos apostar vinte dlares - sugeriu ele.
- Combinado - respondeu Lisa.
- Vinte dlares? - repeti. - Eu no trouxe nenhum dinheiro.
- No se preocupe - disse Lisa. - Voc sempre poder me pagar na escola se perdermos.
- Que histria  essa de se perderem? - interveio Harrison. - Deveria dizer quando perderem.
Brody riu de novo.
- Nem mesmo conheo as regras - sussurrei para Lisa.
- Basta rebater a bola dentro das linhas. - Ela virou-se para Harrison. - Por que vocs dois no fazem um aquecimento?
- No precisamos de um aquecimento... no  mesmo, Brody?
Ele deu de ombros. Harrison tirou sua raquete da bolsa. Brody fez a mesma coisa. Foram ocupar suas posies no outro lado da rede.
- O primeiro servio  meu - disse-me Lisa. Meu corao batia forte. Vinte dlares! Eles falavam a respeito como se fosse uma quantia insignificante.
Comeamos a jogar. Harrison era bom, mas Brody era lento. Logo percebi a maneira como ele costumava
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se postar e descobri que em geral ficava desequilibrado. Havia coisas que eram comuns a todos os esportes: postura, equilbrio, condicionamento e ritmo. Tudo o que 
eu precisava fazer era devolver a bola para Brody com alguma rapidez. Ele a rebatia para fora ou na rede. Ao vencermos um set depois de outro, Harrison foi se tornando 
cada vez mais irritado. Concentrou sua raiva em Brody, o que s o fez jogar pior. Quando Lisa e eu ganhamos a partida, Harrison jogou sua raquete para o gramado.
- Voc mentiu - declarou ele, apontando para Lisa.
- Menti em qu?
- No acabou de ensin-la a jogar. Ningum aprende to depressa a bater na bola desse jeito.
- No menti! - protestou Lisa, as mos nos quadris. - Foi o que ela me contou. Certo, Brooke?
-  verdade.
Como Harrison ainda no parecesse satisfeito, resolvi acrescentar:
- Vamos esquecer o dinheiro.
- Quem se importa com o dinheiro? - murmurou ele. - Brody, d a elas os vinte dlares.
- Por que tenho de pagar tudo?
- Porque voc deixou que duas garotas da Agnes Fodor nos fizessem bancar os idiotas.
Brody enfiou a mo no bolso e tirou um rolo de dinheiro. Separou duas notas de dez e entregou a Lisa. Ela pegou o dinheiro com um sorriso de satisfao. Estendeu-me 
uma nota.
- No quero o dinheiro, Lisa.
- Porque voc mentiu, no ? - interveio Harrison.
- No. Porque no preciso do dinheiro e porque joguei apenas para me divertir.
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- Est bem. Vamos comer alguma coisa, Lisa. Ela no parava de sorrir. Harrison pegou sua raquete no gramado, e fomos todos para a casa. Nosso almoo j fora posto. 
Parecia bastante abundante para uma recepo de casamento, em minha opinio, mas para eles era apenas outra refeio. Havia muitas opes, carnes e frios, pes, 
saladas, batatas diferentes.
- Onde esto seus pais? - perguntou Harrison a Lisa.
Sentvamos a uma mesa no ptio, coberta com uma toalha. Os empregados se movimentavam ao redor, discretos, tirando pratos, trazendo mais comida.
- Foram jogar golfe.
A comida estava deliciosa. Tentei me lembrar da etiqueta s refeies. Mas como sentia muita fome, comecei a comer depressa demais.
- Faminta ou o qu? - indagou Harrison.
- Esqueci de tomar o caf da manh.
No fora o que acontecera, mas era algo que Lisa ou uma das outras garotas diria. Ele aceitou.
- Por que demorou tanto para chegar aqui? - perguntou Harrison.
- Como?
Olhei para Lisa, sem entender.
- Ele est falando da Agnes Fodor.
- Ah... No sei. Apenas... meus pais decidiram de repente que era a escola que eu deveria cursar.
Ele me fitou atentamente, para depois sorrir.
- So de verdade?
- Como?
- Esses peitos. So de verdade?
- Harrison! - protestou Lisa.
- S estou perguntando. No h nada de errado em perguntar, no acha, Brody?
Brody, concentrado na salada de lagosta, levantou
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o rosto e sacudiu a cabea. Tinha as bochechas estufadas por comida.
- E ento? - insistiu Harrison.
- No  da sua conta. Ele riu.
- Isso em geral significa que no... certo, Brody? Brody acenou com a cabea, enftico.
- O que ele ? - perguntei abruptamente. - Seu fantoche?
Harrison soltou outra risada.
- Gostei dela, Lisa. Melhor do que aquelas outras garotas irritantes que voc chama de amigas. - Ele inclinou-se para mim, por cima da mesa. - Talvez eu a convide 
para um mano a mano em minha casa.
- Como?
- Um jogo de tnis. - Ele se recostou, sorrindo. - Ou voc prefere fazer outra coisa?
- No quero fazer nada com voc.
- Qual  o problema? Preocupada com a sua virgindade?
Brody comeou a rir.
- No. Com a minha reputao.
Brody fez uma pausa, para depois continuar a rir ainda mais alto.
- Fique quieto! - disse Harrison, rspido. Ele me fitou, furioso.
- No  qualquer garota que convido para a minha casa.
- O que me surpreende.
Brody teve de morder o lbio para conter outro acesso de riso. Harrison percebeu, pelo canto dos olhos.
- Querem escutar msica? - indagou Lisa, nervosa. - O que voc prefere, Harrison?
Ele virou-se para fit-la, irritado.
- Para qu? No estou interessado em desperdiar
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mais do meu tempo. - Harrison levantou-se. - Talvez eu v assisti-la no seu prximo jogo de softball.
- Est certo.
- No v errar as trs bolas na rebatida - disse ele, com um sorriso satisfeito -, ou mandarei meu fantoche aqui rir de voc.
- No posso pensar numa razo melhor para acertar.
Olhei para Brody, que limpou a boca, agradeceu a Lisa pelo almoo e se afastou apressado para alcanar Harrison. Ficamos observando os dois em silncio. Depois de 
algum tempo, Lisa virou-se para mim.
- Foi demais. Ningum jamais respondeu a Harrison desse jeito. A maioria das minhas outras amigas fica atordoada quando o encontra.
Ela inclinou a cabea, fitando-me com uma evidente curiosidade.
- O que ?
- Voc  diferente, Brooke.
- Como assim? - perguntei, sentindo o corao bater como um martelo dentro do peito.
- No sei.  cheia de surpresas, como aquele inesperado home run. Mas... - Lisa levantou-se de um pulo. -  isso o que gosto em voc. E agora vamos ouvir msica 
e conversar.
Segui-a para dentro da casa, sentindo-me uma mentirosa, como se no pertencesse quele lugar. Mas me sentia mais transtornada por mentir para mim mesma do que para 
minhas novas amigas.
A verdade  que eu s me sentia autntica quando jogava softball ou me empenhava em algum outro esporte. Nessas ocasies, minha verdadeira personalidade no podia 
permanecer oculta.
Harrison ficaria desapontado. Eu no erraria nenhuma bola.
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8 - Bases ocupadas

Perdemos o jogo seguinte, mas no porque eu errasse as rebatidas ou porque as adversrias acertassem meus lanamentos. Nosso time cometeu erros demais, o maior de 
Cora Munsen, que deixou cair uma bola fcil, com duas jogadoras nas bases. A maneira como ela me fitou depois dava a impresso de que fizera de propsito, s para 
me prejudicar. A treinadora Grossbard devia ter pensado a mesma coisa, porque no vestirio perguntou o motivo para no segurar uma bola to fcil.
- O sol no estava em seus olhos e sua posio era boa. O que aconteceu, Cora?
- No sei - respondeu Cora, baixando os olhos.
- No consigo entender. Qualquer uma poderia segurar aquela bola.
Cora no disse nada.
- Talvez ela estivesse ansiosa demais - sugeri. - J aconteceu comigo. Fico pensando em lanar a bola antes mesmo de peg-la.
Claro que nunca ocorrera comigo, mas j vira acontecer vrias vezes com outras garotas. Cora levantou os olhos no mesmo instante, grata pela sugesto.
- Acho que foi isso.
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A treinadora ainda parecia desconfiada.
- Vamos torcer para que no acontea de novo na partida contra Westgate no prximo sbado. Nunca chegamos sequer perto de venc-las. Nos ltimos trs jogos nem conseguimos 
marcar qualquer ponto.
- No vai acontecer de novo - prometeu Cora.
A treinadora colocou cartazes com as palavras "Vamos detonar Westgate" nas paredes do vestirio durante a semana. Descobri que havia uma intensa rivalidade entre 
as duas escolas. A presso para o sbado comeou a aumentar. Era difcil para mim me concentrar nas aulas de piano e nas aulas de modelo, ao mesmo tempo em que fazia 
os deveres da escola e participava dos treinos.
Durante a aula de piano na quarta-feira, o professor Wertzman teve um ataque.
- Voc parece ter esquecido tudo. Esses erros no poderiam ser cometidos por algum que deveria estar praticando.
Ele levantou-se de um pulo, foi at o piano, balanando a cabea, com uma expresso furiosa.
- Desculpe - murmurei. - Estou me esforando.
- No est, no! Sei quando uma aluna se esfora. Fiz promessas  sua me, mas voc torna impossvel cumpri-las.
Lgrimas turvaram meus olhos. Baixei a cabea e esperei que sua fria se dissipasse.
- Vo rir de mim. Tenho uma reputao a proteger. E minha reputao  meu sustento.
- Estou me esforando. Prometo que me empenharei ainda mais.
Wertzman fitou-me com uma expresso que me fez sentir que no era digna de sequer ficar na sua presena. Meus lbios comearam a tremer. Foi nesse momento que Pamela 
entrou na sala. Logo depois do jantar sua
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esteticista viera fazer um tratamento em seus cabelos. Pamela garantira que isso os tornaria mais cheios e lustrosos. No me pareciam nem um pouco diferentes.
- O que est acontecendo aqui? - indagou ela, com as mos nos quadris.
O professor fitou-me e balanou a cabea.
- Devo ter a total cooperao e ateno da aluna para ter xito.
- Brooke, voc no est se esforando?
- Estou, sim. Apenas no sou to boa ao piano quanto todo mundo pensa.
- Quem pensa assim? - murmurou o professor. - Mas voc no pode ser boa se no pratica e no presta ateno. E sei que no tem praticado o suficiente.
- Juro que tenho praticado.
- Acha que ela precisa de mais prtica? - perguntou Pamela.
- No ritmo em que vai, isso  indispensvel. Eu gostaria que ela acrescentasse pelo menos mais quatro horas de prtica por semana.
Foi como se eu tomasse uma colher de sopa de leo de rcino ou levasse uma chicotada nas costas.
- Mais quatro horas? Quando eu poderia faz-lo? Pamela fitou-me com uma expresso fria.
- Creio que o mnimo que pode fazer  encontrar tempo, considerando os sacrifcios e despesas que Peter e eu temos feito por voc. Ela vai praticar mais quatro horas, 
todos os sbados, daqui por diante.
O professor ficou satisfeito.
- No posso praticar mais no sbado... especialmente no prximo sbado. Ser o maior jogo do ano!
- Jogo? - repetiu o professor, olhando para Pamela.
- No d ateno ao que ela diz, professor Wertzman. Por favor, d suas instrues sobre o que quer que ela pratique e o que espera que faa no prximo sbado.
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Ela virou-se para mim, os olhos como pedras frias.
- Estou enviando o pedido para o primeiro teste do concurso esta noite, Brooke. Voc precisa estar pronta para todas as possibilidades. - Ela acrescentou, quando 
fiz meno de falar: - No quero ouvir mais nenhuma palavra a respeito.
- Mas o sbado  muito importante! - insisti, apesar de sua ordem. - Todas dependem de mim!
Pamela revirou os olhos para o teto, como se sofresse uma profunda angstia emocional. Sem olhar para mim, ela declarou:
- Se houver mais algum problema ou se o professor se queixar de novo, ligarei para a sra. Harper e direi que voc est proibida de integrar qualquer equipe, de beisebol, 
damas ou outra coisa.
Ela fez a ameaa sem desviar os olhos do teto. Virou-se em seguida, saiu da sala e afastou-se pelo corredor. O professor virou-se para mim e ordenou:
- Vire a pgina e comece de novo.
As lgrimas em meus olhos deixavam as notas indistintas. Respirei fundo e tentei dissolver o aperto na garganta. Mas persistiu, como se fosse um pedao de chiclete 
grudado ali. A respirao era difcil. Ainda assim, fiz o que o professor pediu. Era mais como uma tortura agora, sua respirao em meu rosto, seus grunhidos e tapas 
no piano. Mas suportei cada momento, apavorada com a possibilidade de Wertzman queixar-se de novo a Pamela.
Assim que a aula terminou, levantei e sa correndo da sala. Subi a escada, os ps ressoando nos degraus com tanta fora que toda a estrutura tremia. Bati a porta 
do quarto e sentei  escrivaninha, furiosa. Sentia-me zangada demais para fazer qualquer dever.
Minutos depois, houve uma batida na porta.
- Entre!
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Peter abriu a porta.
- Vi voc passar voando pelo corredor e depois ouvi a casa caindo sobre a minha cabea. Qual  a crise de hoje?
- O professor de piano acha que estou indo muito mal e quer que eu tenha pelo menos mais quatro horas de prtica. Pamela diz que tem de ser no sbado... e neste 
sbado teremos o maior jogo do ano. Ela disse tambm que se eu criar mais problemas, vai pedir  sra. Harper para me tirar de todos os times. No  justo!
- Parece severo demais - concordou Peter. Depois de um momento pensativo, seus olhos se iluminaram. - Que tal levantar mais cedo e praticar antes de ir para a escola?
- Praticar no vai me ajudar. No sou boa no piano.
- Se fizer o que sugeri, cuidarei para que Pamela no fale com a sra. Harper.
Outra negociao, pensei, outro acordo obtido pelo advogado que  meu pai adotivo. J me levantava mais cedo para cuidar da maquilagem, porque Pamela queria que 
eu parecesse bonita. Talvez fosse melhor nem dormir, pensei. Mas que opo eu tinha? Uma criana adotada era como algum sem direitos ou sentimentos. Se eu queria 
pais, um lar e um sobrenome, tinha de ser obediente. Pamela falara num teste para o concurso de beleza, mas na verdade eu fazia um teste para ser sua filha.
- Est certo. Praticarei tambm pela manh, antes de comer.
- timo. Outra crise resolvida.
Peter estalou os dedos, satisfeito, e desceu para comunicar a Pamela como seria.
Apesar do meu entusiasmo e determinao, os muitos compromissos comearam a cobrar seu tributo.
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Era mais difcil durante as aulas da manh. Tinha a sensao de que me arrastava pelos corredores, mais arriava do que sentava na carteira. Por duas vezes cheguei 
a cochilar por uns poucos minutos na aula de ingls. O sr. Rudley teve de se aproximar e me sacudir pelo ombro depois de fazer uma pergunta. Meus olhos estavam abertos, 
mas eu no o ouvira. Pedi desculpas,  claro.
Mas acordava, de alguma forma, nos treinos de softball. Talvez fosse porque voltava a respirar ar fresco. Era a terceira semana de maio agora. As plantas estavam 
viosas, com um verde lustroso. Duas noites de chuva durante a semana trouxeram os mosquitos, no entanto, e as outras garotas comearam a se queixar. O gramado estava 
mole, at mido em alguns pontos. Todas ficvamos imundas ao final do treino, os uniformes sujos de lama, as mos e cabelos suados, com picadas de mosquitos nos 
braos e pescoo.
Nada disso importava para mim. Sentia que estava em casa. Mas minhas colegas de time queriam que a treinadora Grossbard mandasse limpar e secar o campo. Por toda 
parte em que iam na vida, aquelas garotas ricas e mimadas esperavam que algum mudasse as coisas, para agrad-las ou tornar tudo mais fcil.
Naquela tarde, quando voltei para casa, Pamela viu as pequenas manchas vermelhas na minha nuca. Teve um acesso histrico. A princpio, ela pensou que fosse por causa 
de alguma coisa que eu comera. Acusou-me de consumir chocolate na escola. Depois, achou que era uma reao alrgica a algum outro alimento. J ia pegar o telefone 
para falar com seu dermatologista. Foi nesse instante que eu disse que no passavam de picadas de mosquitos. Pamela ficou imvel, aturdida, como se eu tivesse enlouquecido.
- Mosquitos? Picadas de mosquitos? Mas  inadmissvel! Suba e entre na banheira imediatamente. No
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percebe como isso pode destruir sua pele... e a poucas semanas do teste para um concurso de beleza?
- As marcas das picadas no duram muito. E na prxima vez usarei um repelente.
O que disse s serviu para deix-la ainda mais furiosa.
- No se pode passar substncias qumicas na pele sem mais nem menos. J me viu fazer isso? Pensei que tinha lhe dito para me estudar, ser como eu. Suba.
Pamela me acompanhou. Foi uma surpresa quando me levou para o seu banheiro. Ali, mandou que eu me despisse e entrasse na sauna de vapor. Ligou um controle. O vapor 
comeou a sair dos dutos, at que eu no podia mais ver a porta. Experimentei a sensao de estar sendo cozinhada. Gritei que j era demais, mas o vapor continuou 
a sair. Encontrei a maaneta, mas descobri que no podia abrir a porta.
- Pamela! - gritei. - Est quente demais!
O vapor continuou. Deitei no cho, porque era o lugar mais fresco, e esperei. Quase dez minutos depois, o vapor cessou e a porta foi aberta.
- Saia!
Eu me sentia tonta e pensei que ia desmaiar, mas me mantive imvel enquanto Pamela examinava meu corpo.
- timo! - exclamou ela.
- Estava muito quente l dentro.
- Tem de ser assim para eliminar os venenos. Agora, voc precisa tomar seu banho.
Joline fora chamada para prepar-lo. Depois que entrei na banheira, Pamela ps-se a esfregar minha pele com uma escova dura, deixando-a mais vermelha nos pontos 
das picadas dos mosquitos. Ela despejou diversos leos na gua. Passou o xampu em meus cabelos com tanto vigor que at pensei que deixaria o couro cabeludo sangrando.
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Sa da banheira, exausta, quando ela mandou. Mal tinha foras para me enxugar. Como demorava demais, Pamela gritou para que me apressasse.
- Use o secador nos cabelos, Brooke.
Antes de enrolar a toalha, ela examinou meu corpo com mais interesse do que nunca.
- Qual  o problema? - perguntei. Ela sacudiu a cabea.
- Ainda est acontecendo. Na verdade, at se torna pior. Voc parece muito... masculina. No tem lugares macios. At os seios parecem feixes de msculos.
Pamela fez uma careta, a boca contorcida, os olhos cheios de preocupao.
- Quero que v ao meu mdico.
- Mdico? Por qu?
- Acho que voc no est se desenvolvendo direito. Vou marcar uma consulta.
- Eu me sinto bem.
- No me parece estar bem. Talvez precise de alguns hormnios femininos. No sei. Deixaremos o mdico decidir.
Pamela saiu. Eu me sentia quase que fraca demais para segurar o secador. Depois que me vesti, desci para o jantar. S poderia ficar mais aptica se dormisse. Peter 
viajara a trabalho de novo. No havia sequer uma possibilidade de que ele voltasse a tempo para o grande jogo no sbado. Pamela sentou  mesa e fez uma preleo 
sobre a importncia de proteger minha pele.
- H muita coisa que a maquilagem pode fazer, Brooke. Alguns dos juizes desses concursos de beleza chegam to perto que podem perceber as menores imperfeies. E 
no pense que isso no desempenha um papel importante em suas decises. Porque desempenha. Se encontrarem uma mancha feia em sua pele, o efeito ser desfavorvel, 
por melhor que seja seu
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desempenho nas outras categorias. Especialmente os juizes do sexo masculino.
Ela fez uma pausa para respirar fundo, depois perguntou:
- Por que no est comendo?
- Perdi o apetite porque passei muito tempo na sauna.
Foi o suficiente para lan-la a uma nova tirada.
- O problema no foi a sauna. A remoo do veneno deve tornar seu corpo mais eficiente. O problema  aquele estpido jogo de softball, ao sol quente e destrutivo, 
os mosquitos se banqueteando em sua pele, enchendo os poros de sujeira. E no tem usado de maneira adequada o creme para as mos.
Ela me fitava atentamente, os dedos tamborilando sobre a mesa, enquanto Joline circulava ao nosso redor to silenciosa e rpida quanto podia, tirando os pratos, 
ajeitando talheres, servindo gua nos copos. Estudei Pamela. No havia um nico fio de cabelo fora do lugar. Sua maquilagem estava perfeita. Parecia pronta para 
uma sesso fotogrfica profissional. Ocorreu-me que ela fazia um esforo maior para parecer bonita do que a maioria das pessoas para ter um bom desempenho em seu 
trabalho.
Depois do jantar, a aula de piano foi extenuante. O professor Wertzman sentiu minha exausto assim que comeou. Em vez de facilitar a aula, obrigou a repetir os 
exerccios vrias vezes, pondo defeito em tudo, como sempre. Em determinado momento, ficou to irritado que chegou a dar um tapa em minha mo esquerda. No me machucou, 
mas foi surpreendente e abrupto. Senti um choque eltrico no corao e perdi a respirao por um momento.
- No, no, no! - exclamou ele. - No, no, no! De novo! De novo!
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Como sempre, eu me encontrava  beira das lgrimas quando a aula terminou. Subi para meu quarto, sentei  escrivaninha, atordoada, olhei para os deveres da escola 
ainda por fazer. No tinha energia suficiente para abrir o livro, muito menos para iniciar o trabalho escrito. Adormeci sentada ali e despertei com um sobressalto, 
quando a porta do quarto foi aberta.
- O que est fazendo? - perguntou Pamela. Esfreguei os olhos e olhei para o livro aberto.
- Terminando o dever de matemtica.
- Quero examinar sua pele. - Ela se adiantou para inspecionar meu pescoo. - Vou ligar para a sra. Harper pela manh e apresentar uma queixa formal contra tudo isso. 
No devem permitir que as alunas fiquem expostas enquanto no eliminarem os insetos.
- No, por favor, Pamela, no faa isso. Prometo que manterei o pescoo coberto. No haver mais picadas amanh. Por favor!
- Tudo isso  absurdo demais. Moas bonitas se arriscando a esses danos. Os esportes so para os homens. A pele deles  mais dura que a nossa. E seus msculos maiores.
- Lisa Donald e eu vencemos seu primo Harrison e o amigo dele no tnis no outro dia - ressaltei.
Ela tornou a me fitar com aquela estranha expresso nos olhos, uma mistura de preocupao e espanto.
-- J ouvi dizer que algumas moas pensam como rapazes por causa de deficincias hormonais. Comeo a me perguntar se voc no tem essa condio mdica. Em vez de 
se orgulhar por venc-los no tnis, deveria se orgulhar da maneira como olham para voc, como atrai e conquista sua ateno. A consulta mdica ser na prxima tera-feira, 
depois das aulas. Portanto, venha direto para casa.
- No preciso ir ao mdico.
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- Sou sua me agora, e estou lhe dizendo que quero que seja examinada por um mdico. - Pamela exibiu um sorriso cruel. - Sei que no est acostumada a ter algum 
se preocupando tanto com voc, Brooke, mas  isso o que significa ter pais. Deveria ser grata, em vez de rebelde. Eu bem que gostaria de ouvir um agradecimento de 
vez em quando, em vez desse constante fluxo de reclamaes. E tudo por causa de seu estpido envolvimento com o time de softball.
- Claro que estou grata. Apenas no entendo por que tenho de ir ao mdico. No estou doente ou qualquer outra coisa.
- s vezes vamos ao mdico para prevenir as doenas. No pode compreender isso?
- Posso.
Respirei fundo e olhei para o livro.
- O que mais, Brooke?
- Obrigada, Pamela.
- Assim  melhor. Ah... - Ela j estava na porta. - Peter telefonou. No voltar para casa a tempo de comparecer ao banquete dos mosquitos no sbado. Voc ter de 
providenciar seu transporte. Tenho uma consulta especial com meu dermatologista no sbado. Ele quer me mostrar um novo tratamento para o rejuvenescimento da pele. 
Boa-noite.
Passei a me sentir mais atordoada do que cansada. Minha mente era um turbilho, todas as declaraes e idias de Pamela ricochetando por toda parte como bolas de 
tnis descontroladas. Sabia que no fizera direito os deveres de casa. Quando os recebi de volta, um dia depois, a nota era insuficiente.
- Se no melhorar sua mdia na prxima prova - disse o sr. Sternberg, na frente de toda a turma -, talvez no possa participar das atividades extracurriculares no 
ano que vem.
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Eu sabia que isso inclua todos os esportes.
Meu corao esvaziou como um balo murcho. Olhei para algumas colegas.  exceo de Heather, todas pareciam preocupadas por mim. Ela sorria, os olhos verdes de inveja 
faiscando como as chamas de duas velas. At mesmo Cora Munsen sentiu pena de mim. Depois da aula, ao deixarmos a sala, ela me abordou no corredor e sussurrou:
- Se precisar das respostas na prxima segundafeira, basta dar uma olhada em meu trabalho.
Enquanto ela se afastava apressada, Rosemary Gillian postou-se ao meu lado e murmurou:
- Se precisar do dever de estudos sociais, pode copiar o meu durante o almoo.
Ri para mim mesma, lembrando os comentrios iniciais da sra. Harper.
As alunas da Agnes Fodor no colam. Eram garotas especiais, a nata da sociedade, sofisticadas, privilegiadas e refinadas, das melhores famlias.
Sinto muito, sra. Harper, pensei. A nica coisa realmente especial na Escola Feminina Agnes Fodor eram as mentiras entrelaadas em seu emblema.
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Tivemos o nosso maior pblico no jogo de sbado. No poderia ser um dia melhor para uma partida de softball. O cu era de um azul gelado, com uma nuvem ocasional, 
mais parecendo um sopro de fumaa. Soprava uma brisa fresca, apenas o suficiente para deixar as pessoas mais confortveis na arquibancada.
Como eu no tinha quem me levasse, Rosemary pediu a seu irmo David que fosse com ela me buscar. David no estudava numa escola particular. Achei isso estranho, 
at ele explicar que era amigo de muitos colegas na escola pblica e no queria deix-los.
- Tambm conheo gente em Westgate - comentou ele, depois que entrei no carro. - Disseram que haver mais emoo na partida de hoje do que em muitos jogos masculinos. 
Pela primeira vez em anos pode haver uma disputa de verdade.
A declarao foi um tanto exagerada. As garotas de Westgate eram mais fortes e mais determinadas do que todas as outras com quem j jogramos. Tornara-se uma questo 
de honra para elas manter a srie de vitrias de sua escola contra a Agnes Fodor. Como algum podia
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perder um jogo para uma escola de garotas ricas e mimadas?
Mas nosso time tambm estava determinado. A treinadora Grossbard nos fez uma preleo para a vitria.
- Todos pensam que vocs so um bando de garotas sem fibra. Vo esperar que cedam sob presso e entreguem o jogo, como sempre aconteceu no passado. Mas h um novo 
esprito aqui. Cada uma e todas vocs melhoraram. - Ela fez uma pausa, lanando-me um olhar. - E me orgulho do que jogam hoje. Saiam agora e mostrem a todo mundo 
o que so capazes de fazer.
Aplaudimos a preleo e fomos para o campo. Fiz os meus melhores lanamentos e elas s acertaram uma bola durante os cinco primeiros turnos. O problema era a lanadora 
delas, uma garota alta e morena, de cabelos castanho-escuros, com um corpo to musculoso que sem dvida faria Pamela desfalecer de horror. Ela lanava as bolas com 
uma preciso implacvel. Passei pelo basto duas vezes, sem conseguir rebater nenhuma bola. Cora ainda acertou uma, mas foi direto para a mo de uma jogadora adversria.
Um erro do nosso lado ps uma jogadora delas na base, no ltimo turno. A jogadora seguinte errou as rebatidas, mas a que entrou depois acertou uma bola que caiu 
entre a segunda base e a nossa jogadora no centro. Seu lanamento conseguiu manter a jogadora delas na terceira base. Uma das melhores batedoras adversrias entrou 
no jogo. Respirei fundo, vrias vezes, enquanto olhava para a multido. Havia um silncio de expectativa. Algumas pessoas davam a impresso de que prendiam a respirao. 
Avistei o sr. Rudley na arquibancada. Ele me sorriu e levantou o polegar. Teria sido maravilhoso ver Peter ali tambm, me aplaudindo, pensei.
Meu primeiro lanamento foi fora da rea, mas o segundo foi na parte baixa da zona de rebatida. A batedora
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errou. Ela alegou que a terceira bola foi fora dos limites. Acertou em seguida uma bola que veio direto para cima de mim. Permaneci na posio e peguei-a, embora 
doesse a mo, mesmo com a luva. Virei-me no instante e joguei a bola para a nossa jogadora na primeira base. A corredora delas j fora muito longe e no conseguiu 
voltar a tempo. Conseguimos tirar do jogo ao mesmo tempo a batedora e a corredora.
Nossa torcida delirou. Pais, irmos, irms e amigos se levantaram para nos aclamar, ao sairmos do campo. A vitria ainda era possvel, com o jogo indefinido. Mas 
nossa primeira batedora errou trs lanamentos. Nossa confiana comeou a definhar. Ningum o disse, mas quase que se podia ouvir as pessoas pensando que cansaramos 
primeiro.
Eu era a quarta, mas algum teria de entrar na base. Heather foi a seguinte. Desferiu o basto com os olhos fechados, afastando-se tanto da base que provocou risos 
e zombarias da torcida adversria.
- Qual  o problema, meu bem? Est com medo de borrar a maquilagem?
- Acha que vai estragar a plstica no nariz?
- Tome cuidado. A prxima bola tem seu nome gravado: Garota Medrosa.
Os risos contagiaram os torcedores. Apesar dos nossos esforos e da boa partida at aquele momento, ainda nos consideravam uma piada. Percebi que algumas companheiras 
sentiam-se magoadas. Se no fizssemos alguma coisa agora, pensei, certamente perderamos o jogo.
Eva Jensen era a seguinte no basto. Parei a seu lado, a caminho da base.
- Ela est lanando um pouco mais para dentro, Eva. D um passo para trs e tente acertar no lado direito.
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Eva acenou com a cabea e assumiu a posio. O primeiro lanamento foi muito baixo, mas o segundo foi exatamente como eu indicara. Eva recuou e desferiu o golpe. 
Acertou em cheio. A bola seguiu para a primeira base. A garota ali calculou errado. A bola passou por cima de sua cabea e foi para o lado direito. Uma corredora 
nossa alcanou-a primeiro.
Olhei para a treinadora Grossbard, que me ouvira dar o conselho a Eva.
- Ela  esperta - disse Grossbard. - Voc no vai ter outro lanamento previsvel.
Acenei com a cabea e fui para a base. Mais uma vez, houve silncio na arquibancada. A lanadora tentou me fazer rebater dois lanamentos que foram baixos e fora, 
mas consegui me conter. O lanamento seguinte veio pelo canto externo. Era do tipo que exigia muita fora na rebatida. Inclinei-me para a direita e desferi o golpe. 
O basto acertou na bola um pouco abaixo da extremidade.
A bola subiu.
E continuou a subir, passando por cima da cabea da jogadora no lado esquerdo, passando por cima da cerca. Eu conseguira um home run.
J estivera em jogos na escola pblica, especialmente as partidas de basquete mais emocionantes, em que o pblico gritava to alto que meus ouvidos zumbiam. Eis 
o que acontecia agora. Enquanto eu contornava as bases, nossos torcedores aclamavam to alto que senti os ouvidos doer em. O sr. Rudley tinha um sorriso enorme, 
a treinadora Grossbard... a treinadora Grossbard tinha lgrimas de alegria escorrendo pelo rosto, durante minha corrida pela segunda e terceira bases.
Cora me deu um abrao que quase rachou minhas costelas. Todas no time me cercaram. Heather manteve-se  beira do grupo, exibindo um sorriso forado. No
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podia me lembrar de outra ocasio em minha vida na qual me sentisse mais emocionada e mais orgulhosa de mim mesma. A multido manifestava seu reconhecimento. Mas, 
infelizmente, nem meu novo pai nem minha nova me se encontravam presentes para testemunharem aquele momento. Eu continuava sozinha como sempre estivera antes, mesmo 
agora, mesmo quando queria tanto meus pais que o corao at doa.
Lisa Donald anunciou uma festa da vitria em sua casa. Todas do time foram convidadas,  claro, at mesmo a treinadora Grossbard. Seria um churrasco. Ao voltar, 
entrei correndo em casa, na esperana de que o convite para a festa de Lisa pudesse fazer Pamela compreender como tudo aquilo era importante para mim. Talvez at 
ela passasse a se orgulhar de meus feitos esportivos.
Em vez disso, encontrei-a quase transtornada. Peter no voltara para casa to cedo quanto ela esperava. Antes mesmo que eu tivesse tempo para contar qualquer coisa, 
Pamela gritou:
- Tudo est desmoronando!
- O que aconteceu?
Parei no vestbulo, segurando a luva e a bola da vitria. Todas haviam assinado... e a assinatura da treinadora Grossbard era a maior. Tambm constava a data do 
jogo.
- Seu teste para o concurso foi confirmado, mas esqueci a parte mais importante, no sei como. Provavelmente por causa de toda a confuso em torno de suas aulas 
de piano.
Pamela comeava a esvaziar minha bolha de excitamento.
- O que  to importante assim?
- Suas fotos! - Ela olhou para a porta. - Onde ele est? Onde ele est?
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- Quem? Peter?
- No. O fotgrafo. Mandei que ele viesse para c e aprontasse tudo antes de sua volta. Quero que as fotos sejam tiradas no trio, perto das portas da sala de estar. 
As flores ali vo proporcionar um fundo colorido. A impresso ser mais real... e voc ser como uma princesa. Por que continua parada a, Brooke? Suba correndo 
e tire a sujeira de sua pele. Tome um banho, passe bastante xampu, comece a se maquilar. Devemos estar prontas dentro de uma hora.
- No quer saber o que aconteceu no jogo?
- Jogo? Que jogo? Aquilo que vocs chamam de softball?
- Isso mesmo. Vencemos o jogo. Consegui um home run no ltimo turno e virei o jogo a nosso favor. Foi como uma deciso de campeonato. Havia muita gente presente, 
mais do que nunca, at os professores. Fiz alguns lanamentos sensacionais. H uma festa de comemorao na casa de Lisa Donald. Todas no time vo comparecer. Os 
professores e pais tambm foram convidados.
- Quem tem tempo para isso? Voc enlouqueceu? A sesso fotogrfica vai levar horas. No podemos apresentar fotos comuns aos juizes do concurso. Devem ser profissionais, 
batidas como se voc fosse uma modelo. Agora, pare de perder tempo e suba para se aprontar. Usaremos mais de um traje,  claro. Inclusive o mai que comprei para 
voc na semana passada. V logo!
Pamela acenava com a mo para a escada, na maior ansiedade. Olhei para a bola em minha mo. De que adiantaria mostrar a ela? Pamela bem que seria capaz de jog-la 
na mquina de lavar roupa. Comecei a subir a escada.
- Podemos pelo menos ir-  festa depois que tirarmos as fotos?
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- Veremos, Brooke. No consigo pensar em qualquer outra coisa neste momento. Joline! Joline!
- Pois no, madame?
- Suba e prepare o banho de Brooke! Depressa!
- Pois no, madame.
Joline subiu apressada, passando por mim. J estava no banheiro, arrumando os leos de banho, antes mesmo que eu tirasse o uniforme.
Fiquei sentada ali, atordoada. No sentia a menor disposio para posar como modelo, a fim de participar de um concurso de beleza. Voltara para casa numa nuvem de 
felicidade e agora sentia que era arrastada pelos cabelos e empurrada para algum palco, cercada por estranhos olhando para mim com nmeros nos olhos.
Como era de se prever, no me apressei o suficiente para Pamela. Quando ela entrou correndo no quarto, eu ainda estava sentada  mesa de maquilagem secando os cabelos.
- Ainda no ficou pronta, Brooke?  capaz de correr como o vento por aquelas bases idiotas num jogo, mas vira uma tartaruga na hora de se aprontar para uma coisa 
realmente importante.
Ela atravessou o quarto, a caminho do closet, enquanto falava.
- O jogo  realmente importante para mim - declarei, o orgulho aflorando.
Pamela ignorou meu comentrio. Vasculhou as roupas penduradas no closet.
- Quero uma roupa bem colorida. Ao mesmo tempo, deve ser algo que oferea uma exposio simples de sua beleza.
- No sou bonita - murmurei, mais para mim mesma.
Mas ela ouviu e virou-se bruscamente.
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- Pare com isso! No quero ouvir mais. J expliquei que no ficar bonita se disser a si mesma que no . A atitude  fundamental. Por que eu trabalharia tanto com 
voc, ensinando-a a sentar, andar, falar, erguer a cabea, at mesmo a virar os olhos, se no achasse que era bonita? As fotos tambm no mentem. Portanto, voc 
tem de mudar sua atitude antes de descer. Quero ver efervescncia, vida, juventude, seus olhos irradiando confiana. Pare de me olhar assim! Escove logo os cabelos 
e comece a se maquilar!
- Okay.
- No diga okay. Diga sim, est bem. J esqueceu o que lhe falei? Okay ... inferior.
Pamela separou a roupa que queria que eu vestisse, depois pegou o mai.
- O fotgrafo j chegou.  um profissional dos mais respeitados. Est armando tudo no trio neste momento. Conversarei com ele sobre o que voc deve usar primeiro 
e voltarei em seguida. At l, j deve estar pronta para pr o vestido. Est bem?
- Est. Mas se terminarmos a tempo, poderemos ir  festa da vitria? Por favor?
- Veremos.
Pamela saiu do quarto. Olhei para o relgio. As outras jogadoras e suas famlias deviam estar comeando a chegar na casa de Lisa naquele momento, enquanto eu me 
encontrava retida ali. Minha nica esperana era cooperar e acabar com a sesso de fotos o mais depressa possvel.
J me aprontara quando Pamela voltou. Ela me disse para pr o vestido azul-claro, com a gola em V. Ajeitou o suti com enchimento para realar meu pequeno busto, 
depois me entregou um colar de prolas. Assim que acabei de me vestir, ela me postou na frente dos espelhos e ajeitou os meus cabelos.
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- Voc est corada. Eu sabia que isso ia acontecer. Ficar tanto tempo ao sol naquele campo no podia deixar de arruinar sua pele.
Pamela me fez sentar de novo. Trabalhou na maquilagem at ficar satisfeita. Levou quase meia hora.
- Quando Peter voltar para casa? - perguntei, ao descermos.
- No me lembro. Mais tarde.
Eu torcia para que ele chegasse antes de terminar a sesso de fotos e concordasse em me levar  festa.
O fotgrafo era um rapaz simptico, de cabelos crespos escuros. Seu nome era William Daniels. Pela maneira como Pamela o elogiara, eu esperava algum muito mais 
velho e mais experiente. Quando William comeou, no entanto, compreendi que ele sabia muito bem o que fazia. Cada vez que Pamela apresentava uma sugesto, ele explicava 
calmamente por que no daria certo, por que a iluminao seria errada, por que meu perfil no ficaria to favorvel, ou por que a cena de fundo perderia seu valor.
William percebeu no mesmo instante como eu estava tensa e infeliz. Fez o que podia para me deixar relaxada.
- No resista - murmurou ele, enquanto ajustava minha pose. - Terminaremos mais depressa se voc relaxar e deixar que tudo acontea naturalmente.
Ele tinha toda razo,  claro. Parei de desejar e torcer para que acabasse logo.
- Assim est timo - dizia ele a todo instante. Pamela tambm relaxou. Subi correndo para trocar de roupa. Mas quando voltei, Pamela achou que meus cabelos haviam 
perdido a forma. Fez William esperar, enquanto os escovava de novo, at se sentir satisfeita.
J estvamos trabalhando h quase uma hora e meia. Eu sabia que a festa na casa de Lisa se encontrava
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no auge da animao quela altura. Imaginei que todos especulavam quando eu chegaria. Heather deveria estar dizendo que eu queria apenas fazer uma entrada especial, 
por isso me atrasara de propsito. Era uma coisa que ela prpria no hesitaria em fazer.
Pamela teve mais problemas ainda com minha foto de mai. Assim que o vesti, ela soltou um grunhido desesperado.
- No pode evitar que esses msculos sobressaiam em suas pernas?
- No estou fazendo nada!
- No h nada que voc possa fazer? - perguntou ela a William.
Ele me estudou por um momento, ajustou minha pose, e sacudiu a cabea.
- Ela tem um corpo excepcional, sra. Thompson. No entendo por que quer escond-lo.
- Vo pensar que  uma dessas mulheres que fazem musculao ou algo parecido. Quem quer uma amazona como Miss Amrica? Relaxe os braos, Brooke!
Tentei ficar to descontrada quanto podia, mas nada era capaz de satisfaz-la.
- Vo detestar esta foto - murmurou ela.
- Verei o que posso fazer - disse William. - Talvez seja possvel dar alguns retoques.
- Pode dar certo nas fotos, mas no quando ela estiver Desfilando pelo palco em carne e osso - lamentou Pamela.
Ele fitou-a em silncio, esperando.
- Est bem, est bem - resmungou ela, com um aceno de mo. - Faa o que puder.
A sesso fotogrfica finalmente terminou. Subi correndo para vestir uma cala comprida e uma blusa. Voltei antes que William tivesse acabado de guardar seus equipamentos.
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- Podemos ir para a festa agora, Pamela? - pedi, mal conseguindo conter meu excitamento.
- Tenho uma terrvel dor de cabea de toda essa tenso e problemas - declarou ela, balanando a cabea. - E levaria horas me aprontando para aparecer em pblico.
- Mas... todos esto me esperando. Prometi que iria. Por favor.
- Eu posso lev-la - ofereceu William. Olhei para Pamela.
- Est bem - concordou ela, relutante.
- Obrigada, Pamela, obrigada!
Ajudei William a carregar os equipamentos para o carro, a fim de que ele partisse mais depressa.
- Qual  a comemorao da festa? - perguntou ele, depois que entramos no carro.
Contei tudo. William sorriu, impressionado. Por que meus pais no podiam ser assim?, pensei. Ele falou que era casado, tinha filhas gmeas, com quatro anos.
- As duas so graciosas e iguais. Vivo tirando fotos delas, como pode imaginar, mas no gostaria que entrassem em concursos de beleza. Hoje em dia h concursos at 
para meninas de cinco anos. Ficam parecendo mais velhas, vestidas e maquiladas para o concurso.  um exagero.
- Tambm no quero entrar num concurso.
- Deu para perceber - comentou ele, sorrindo. - Mas se no fosse por pessoas como sua me, eu teria dificuldades para ganhar a vida.
Conversar com William me ajudou a relaxar. Ele assoviou quando viu a casa dos Donald.
- Voc sabe escolher os lugares que freqenta. Como costumam dizer,  melhor nascer rico do que nascer.
Se ele soubesse a verdade, pensei, rindo para mim mesma. Agradeci a carona e saltei do carro.
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O atraso me valeu uma grande recepo. Assim que me viram, houve silncio na festa... e um momento depois, todos gritaram meu nome e aplaudiram. Cercaram-me para 
dar os parabns. Muitos dos professores estavam presentes. At a sra. Harper viera. Lanou-me um olhar contido de aprovao. Harrison, o primo de Lisa, falando com 
mais respeito na voz, tentou me persuadir a ser mais generosa com ele. Meu corao transbordava tanto de alegria que no podia detestar ningum. Para mim, aquele 
era o maior dia de minha vida, aquela a melhor festa a que eu poderia comparecer, talvez melhor at do que meu casamento. Nada poderia projetar uma nuvem escura 
sobre aquele dia, pensei.
Estava enganada.
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10 - Pura satisfao

Eu tinha a sensao de que flutuava por cima da festa, no era de fato uma participante. Nunca, em toda a minha vida, tantas pessoas haviam pensado to bem de mim. 
Havia muitas outras garotas que eram boas em esportes na escola pblica. Alm disso, eu sempre era considerada como uma daquelas meninas do orfanato, o que reduzia 
a importncia dos meus feitos.
No podia deixar de me sentir especial aqui. Vivia numa casa to grande ou at maior que as casas da maioria das outras garotas. Usava roupas que eram to caras 
quanto as delas, se no at mais caras. Ningum podia me menosprezar e desdenhar meus feitos com meras palavras, dizendo " uma delas".
Eu sabia que estava me deixando ficar inebriada demais. O irmo de Lisa e seus amigos me cercavam durante a maior parte do tempo. Ainda usava o que qualquer outra 
pessoa provavelmente chamaria de maquilagem de palco. Imaginei que todos pensavam que me arrumara assim s para a festa. Sentia-me embaraada demais para falar sobre 
o concurso de beleza s minhas amigas. Por isso, nada disse.
Mas percebi os olhares de inveja de algumas colegs,
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enquanto os rapazes disputavam as posies ao meu redor, queriam me prestar favores, buscar comida ou alguma coisa para beber, tentavam me impressionar com suas 
histrias e piadas.
Logo depois que cheguei, Lisa e Eva me chamaram. Fomos nos encontrar com as outras garotas dentro da casa, para rir e falar dos rapazes. Pela primeira vez na vida, 
eu sentia que era algum aos olhos de minhas colegas de escola. Podia at aturar todas as exigncias de Pamela s para desfrutar aquele momento e aquela oportunidade.
Mais tarde, pouco antes de a festa terminar, Heather inclinou-se para mim e sussurrou:
- Preciso conversar com voc. Tenho uma coisa muito importante para lhe dizer. No pode esperar.
- Agora?
Ela acenou com a cabea e afastou-se. Heather me ignorara durante a maior parte da noite. Por isso, fiquei surpresa com seu tom de urgncia. Segui-a at um ponto 
bem distante dos outros, para podermos falar em particular.
- O que ? - perguntei, olhando para a festa.
Eu gostaria que pudesse continuar para sempre, a msica, as luzes, a comida maravilhosa, toda a diverso.
- Acabei de ouvir minha tia falando a seu respeito - anunciou Heather.
Era como se estivssemos num filme, a cmera parasse de repente, a imagem na tela comeasse a se dissolver. A festa se tornou nebulosa, enquanto meus olhos ficavam 
turvos de medo.
- Como assim? - indaguei, num fio de voz.
- Sei que  uma rf e que seus pais no so realmente seus pais. Nunca sequer conheceu sua verdadeira me. No tem um pai de verdade. Sabe como chamam uma pessoa 
sem pai?
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Sacudi a cabea.
- No quero ouvir. Heather sorriu, friamente.
- Pensei que voc deveria saber que eu sei.
Seu tom era de profunda satisfao. Mas o sorriso logo se dissipou e foi substitudo por uma expresso de raiva.
- No  de admirar que pratique esportes como um menino.
- O que isso tem a ver com o assunto?
Ela tornou a sorrir, como se eu devesse saber.
- S no quero que se meta a besta para cima de mim - advertiu Heather, para se afastar em seguida.
Meu corao batia forte. A minha pessoa, que eu imaginara flutuando por cima da comemorao da vitria, arriou lentamente para o cho. Com as pernas trmulas, fui 
me juntar s outras pessoas na festa, mas no escutava o que diziam, no ouvia a msica. De vez em quando avistava Heather me observando e sorrindo, com uma intensa 
satisfao.
Para ser franca, fiquei grata quando Peter chegou para me buscar. Ele foi apresentado s pessoas, que lhe deram os parabns por meus feitos.
- Sinto muito ter perdido o jogo - disse ele, quando nos encaminhamos para o carro. - Pela maneira como todos falaram, voc foi sensacional. No contou a Pamela? 
Ela no me disse nada quando cheguei em casa.
- Tentei contar, mas ela estava preocupada demais com as fotos. Quase perdi a festa da vitria.
- Pamela no entende... Explicarei tudo. E ento, grande batedora... - acrescentou ele, com um sorriso, sentindo que havia algo errado. - ... qual  o problema?
- Estou apenas cansada.
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Eu queria desesperadamente evitar que qualquer coisa estragasse aquele dia e aquela noite.
- No  de admirar. Fazendo os trabalhos atrasados da escola, estudando os novos, aprendendo a tocar piano, levando o time de softball a grandes vitrias... uma 
pessoa que faz muita coisa. Sinto orgulho de voc, Brooke. Com toda sinceridade.
O comentrio me fez sentir melhor. Pamela j se deitara quando chegamos. Peter subiu apressado para conversar com ela sobre o jogo, a fim de faz-la compreender. 
Fui para a cama. Quando encostei a cabea no travesseiro, experimentei a sensao de que o corpo se transformara em chumbo. Mergulhei num sono profundo, e no acordei 
at que os raios do sol incidiram em meu rosto pela manh.
Peter recebeu um telefonema no incio da manh que estragou seu domingo. Antes mesmo de eu descer para o caf da manh, ele teve de seguir para seu escritrio. O 
que deixou Pamela furiosa, de mau humor. Passei a maior parte do tempo estudando para as provas. No recebi nem a metade dos telefonemas que esperava. Peter s voltou 
quase na hora do jantar. Dava para perceber que ainda persistia uma enorme tenso entre ele e Pamela. Foi uma das refeies mais silenciosas desde que eu chegara 
na casa.
Tudo-isso cobrou seu tributo sobre mim naquela noite. Adormeci com os livros no colo. Quando acordei, na manh de segunda-feira, era mais tarde do que o habitual. 
Por isso, tive de omitir a prtica de piano e no consumi tanto tempo na maquilagem. Por sorte, Pamela dormiu at mais tarde e no teve chance de me inspecionar 
antes da ida para a escola, como costumava fazer. Mas ela deixou recado com Peter para me lembrar que tinha uma consulta com o mdico no dia seguinte,
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depois das aulas. Comentei que achava isso um absurdo. No havia nada errado comigo.
- No h mal nenhum em fazer um checkup, Brooke. Pense nesses termos.
Se houvesse qualquer possibilidade de um acordo, Peter saberia descobri-lo, pensei. De qualquer forma, era bvio que no momento ele queria evitar discusses com 
Pamela.
Pude perceber que havia alguma coisa diferente no ar assim que cheguei  minha sala principal na escola. Todo mundo tem de descer de um pique de excitamento, refleti, 
e era assim que parecia. Voltvamos ao dia de estudo normal. A vitria j comeava a se desvanecer no passado, tnhamos de pensar nas provas iminentes, nos novos 
trabalhos.
Atrasei-me para o almoo porque fiquei mais tempo na sala para conversar sobre um problema de matemtica. No instante em que entrei no refeitrio, houve um sbito 
silncio nas conversas. Quando olhei para as garotas, algumas baixaram os olhos, com uma expresso culpada. Por qu? Servi-me da comida e fui sentar  mesa habitual 
das minhas amigas.
- Pensei que o sr. Brazil fosse me manter ocupada durante toda a hora do almoo - comentei, rindo. - Sabem como ele fala devagar.
Eva sorriu, mas foi a nica. Comecei a comer. Notei que todas se mantinham um tanto caladas.
- Algum problema? - perguntei.
Ningum respondeu. Era como se eu no estivesse ali. A campainha tocou para a aula seguinte quase antes que eu terminasse de comer. Todas comearam a se afastar. 
Agarrei Lisa pelo pulso.
- O que est acontecendo com todas hoje? Agem como se algum tivesse morrido.
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Ela olhou para as garotas que se encaminhavam para a porta e murmurou:
- Algum morreu.
- O que isso significa? Quem morreu?
- Muitas das garotas acham que voc  uma impostora - disse ela, friamente.
- Uma impostora? Por qu?
- Porque no contou a ningum que era adotada.
- Ahn... - Olhei para a cabea de Heather Harper, que ria alto naquele momento. - Por que eu tinha de anunciar isso?
- No precisava anunciar, mas tambm no tinha de fingir que era algum que no era.
- Tem toda razo - respondi, rspida. - Ainda mais aqui, onde todas julgam todas por quanto dinheiro seu pai ganha ou o tamanho de sua casa.
- Isso no  verdade.
- , sim.
Lisa me lanou um olhar furioso.
- Provavelmente voc sabia jogar tnis desde o incio. E me fez bancar a idiota.
- O qu?
Ela comeou a se afastar.
- Eu no sabia jogar. Como poderia? Acha que tnhamos uma quadra de tnis no orfanato?
Algumas das outras garotas olharam para trs ao ouvirem meu grito, mas nenhuma esperou para me acompanhar at a sala.
Menos de quarenta e oito horas antes, pensei, eu era uma herona da escola. Hoje, sou uma pria. Uma ocasio, quando me queixara que algumas das outras alunas na 
minha antiga escola me faziam sentir inferior, uma das conselheiras no orfanato dissera que s vezes voc  mais respeitada por causa da natureza das pssoas
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que a detestam. Ela tinha razo. Se podia sentir alguma coisa, eu me sentia furiosa comigo mesma por tentar ser parecida com aquelas garotas. Por mais dinheiro que 
Pamela e Peter tivessem, por mais que gastassem em roupas para mim, por mais concursos de beleza que eu entrasse, por maior que fosse nosso carro e nossa casa, eu 
nunca seria como aquelas garotas. Tinha a sensao de que nascera e vivera num pas diferente. Praticamente falava uma lngua diferente.
Abaixei a cabea e avancei. Concentrei-me nas aulas pelo resto do dia. Ignorei todas as colegas. A maioria era polida, embora no cordial. At os professores me 
pareciam diferentes. Talvez fosse minha imaginao. Talvez estivesse sentindo pena de mim mesma. De repente, tinha pouco por que esperar.
Meu nimo sombrio e desolado se dissipou quando fui para a aula de educao fsica. A treinadora Grossbard me chamou  sua sala antes de eu vestir o uniforme de 
exerccios. Sentava atrs de sua mesa com um enorme sorriso.
- Recebi um telefonema sensacional h meia hora e fiquei esperando por voc, Brooke.
O que poderia ser?, especulei. Ela teria recebido um telefonema para avisar que eu era rf? E isso, por algum motivo, deixava-a na maior felicidade?
- O que tem a ver comigo?
- Tudo. Voc foi escolhida pela liga para participar de um jogo com as melhores do condado.  bem provvel at que seja a primeira lanadora.
-  mesmo? As melhores do condado? Ela acenou com a cabea.
- Nunca antes tive uma aluna na seleo. Parabns, Brooke.
Grossbard se levantou. Em vez de me apertar a mo, ela me deu um abrao. No pude deixar de chorar.
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- Ei, esta deveria ser uma ocasio feliz! - exclamou a treinadora, rindo.
Mas havia um excesso de bagagem emocional. Eu no podia mais agentar. Passei a chorar ainda mais.
- Qual  o problema, meu bem? - indagou ela, fazendo-me sentar.
Contei tudo, to depressa quanto podia. Ela se recostou, ouviu em silncio, o rosto vermelho de raiva.
- Deveriam chamar isto aqui de Escola para Esnobes Agnes Fodor. Mas no deve deixar que elas a angustiem. Esto todas com inveja, mais nada.
- No, no esto. No h nada que elas possam invejar. Pois todas tm uma famlia de verdade.
- Voc  duas vezes melhor que qualquer uma, meu bem. Com ou sem famlia de verdade. As pessoas vo julg-la por voc mesma, no por causa do nome de sua famlia. 
Vai ver s. Se no se sentir com vontade de fazer a aula hoje, pode ir embora. Trate de descansar.
- No - murmurei, removendo as lgrimas dos olhos e respirando fundo. - Quero fazer a aula.
Ela sorriu.
- O jogo das melhores do condado! Sensacional! Serviu para me animar. Sentia-me mais forte ao deixar o prdio do que no momento em que entrara. A notcia a meu respeito 
ainda no se espalhara, mas no imaginava que minhas supostas novas amigas continuariam to felizes em relao a mim quanto eram antes. Tentei no pensar a respeito.
Pamela no estava em casa quando voltei. Fui para o meu quarto e comecei a fazer os deveres da escola. Mas meu excitamento era to grande que no conseguia me concentrar 
direito. Finalmente ouvi passos na escada. Sa para ver Joline subindo, carregada de pacotes. Pamela vinha logo atrs.
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- Tive de comprar algumas roupas novas para usar durante o concurso - explicou ela, parando no corredor. -  importante que eu tambm me apresente no rigor da moda. 
Sempre tiram fotos das mes e filhas.
- Tenho uma coisa para lhe contar. - Eu sabia como era importante para ela que ningum soubesse a verdade a meu respeito. - As garotas descobriram tudo. Sabem que 
sou uma filha em processo de adoo.
- O qu? Como isso pde acontecer?
- Heather Harper ouviu a tia comentar com algum e espalhou para todo mundo. So um bando de esnobes. Eu as detesto. E detesto aquela escola, com exceo da treinadora 
Grossbard. At os professores me olham de uma maneira diferente agora.
Pamela ficou furiosa.
- Espere s at eu contar a Peter! Vamos processla por revelar um segredo!
- E de que isso adiantaria para mim?
Mas ela no respondeu. Virou-se e desceu a escada. Peter chegou em casa pouco mais de uma hora depois. Ouvi as vozes alteradas l embaixo e desci para encontr-los 
na sala da famlia. Peter parecia exausto, o rosto vermelho, os cabelos despenteados.
- No h base para processar ningum - disse-me ele, assim que entrei.
- No quero que faa isso, Peter. No adiantaria nada.
- Ela tem razo, Pamela. Vamos esquecer o assunto.
- No vou esquecer nada. Aquela mulher vai saber do que sou capaz. Falarei com o conselho de administrao. Ela deve ser despedida por isso.
- O mal j est feito, Pamela,  melhor esquecer - insistiu Peter.
- No quero ir para aquela escola no ano que vem - declarei.
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Pamela fitou-me, com um movimento brusco da cabea.
- No quer ir para l? E onde estudaria? Numa escola pblica?
- No me importo. Detesto aquelas garotas. E muito em breve elas sentiro ainda mais inveja de mim.
Peter alteou as sobrancelhas.
- Por qu?
- Fui escolhida para participar do jogo das melhores do condado, uma verdadeira seleo. E serei a primeira lanadora.
Ele ficou radiante, com um enorme sorriso.
- Mas isso  fantstico, Brooke! Peter levantou-se para me abraar.
- Que tipo de proeza  essa? - murmurou Pamela.
-  a coisa mais importante que j me aconteceu. Ela sorriu e sacudiu a cabea.
- No posso suportar toda essa tenso.  prejudicial  pele. - Pamela levantou-se. - Preciso sentar em minha cadeira de massagem eltrica antes do jantar.
- Estou emocionado por voc, querida - disse Peter. - Quando ser o jogo?
Informei a data. Pamela parou de andar, perto da porta. Virou-se para mim.
- O que voc disse? Quando ser esse jogo absurdo? Repeti a data.
- Voc no poder ir, Brooke. No se lembra o que vai acontecer nesse dia? Estive falando sozinha durante semanas e semanas?  a data do seu teste para o concurso 
de beleza. J est tudo providenciado.
- No  possvel. - Sacudi a cabea vigorosamente. Olhei para Peter, mas ele parecia preocupado. Mas com certeza encontraria um dos seus engenhosos acordos, pensei. 
- Fui escolhida entre todas as garotas de todas as escolas.  uma grande honra.
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- No  honra nenhuma - protestou Pamela. - Como pode comparar um jogo de softball a ganhar um concurso de beleza?
- No me importo. Vou jogar. Fui escolhida para a seleo do condado. No irei ao concurso.
- Mas claro que ir! - gritou ela. - Vou telefonar imediatamente para aquela sua diretora que fala demais. Direi que probo a sua participao no jogo... e se ela 
no quiser me obedecer, ameaarei procurar o conselho de administrao para contar sua fofoca!
- Pamela... - murmurou Peter.
- O que ? No est pensando em permitir que ela v ao jogo em vez do concurso, no ? Pense em tudo o que tenho feito, o que j gastamos, as aulas de piano, o trabalho, 
as fotos!
- Talvez possamos marcar outro dia para o teste - argumentou Peter, ainda falando em voz suave.
- Sabe muito bem que no podemos fazer isso. Sabe como foi difcil arrumar essa data. - Pamela virou-se para mim. - Voc ir ao concurso. Esquea o tal jogo.  uma 
menina. Uma jovem bonita. No  alguma... alguma amazona. No vou admitir. Sou Pamela Thompson. Minha filha vai ganhar um concurso de beleza!
- No vou ao concurso de jeito nenhum! - gritei tambm, para depois sair correndo da sala.
- Vou ligar para a sra. Harper agora mesmo! - berrou Pamela, enquanto eu comeava a subir a escada. - Pode tirar esse jogo da sua cabea, Brooke! Est me ouvindo?
Bati a porta do quarto e tranquei-a. Fui me jogar na cama, comprimi o rosto contra o travesseiro at que no conseguia mais respirar.
Por que aquilo tinha de acontecer comigo?
Sentei e olhei para a minha imagem no espelho da
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mesa de maquilagem. Por que eu nascera, se era para sofrer tanto? Por que as pessoas tinham filhos que no queriam?
Ao entrar no orfanato e olhar para mim, Pamela na verdade no me vira. Em vez disso, vira a si mesma. Vira o que queria que eu fosse. Trouxera-me para sua casa e 
tentara me transformar na garota que vira. Mas no sou essa garota, disse  minha imagem no espelho. Nunca serei essa garota.
A maquilagem ficara borrada com as lgrimas. Limpei o batom. Depois, num acesso de raiva, fui para o banheiro e lavei o rosto at a pele arder. Sa do banheiro e 
tornei a me contemplar no espelho. Praticamente arranquei a blusa e o suti com enchimento. Abri a gaveta da cmoda e peguei a fita rosa desbotada que minha me 
deixara comigo. Prendi-a nos cabelos. Tornei a vestir a blusa e sentei, furiosa.
Ouvi passos no corredor.
- Por que trancou a porta? - gritou Pamela.
- No quero falar com ningum.
- Acabei de falar pelo telefone com a sra. Harper. Pode esquecer o tal jogo. J resolvi esse assunto. Agora, pare com essa besteira. Quero conversar com voc sobre 
o teste. Tenho outras coisas para explicar.
As lgrimas escorriam de novo por minhas faces. Sentia um tremendo peso nos ombros.
Todas as colegas na escola me desprezavam. Ainda por cimaperdia o nico grande feito que j conseguira na vida. A treinadora Grossbard tambm ficaria desapontada.
- Brooke! Est me ouvindo?
Senti alguma coisa se romper dentro de mim. Era como se meu corpo fosse feito de vidro, que de repente se partia. Daqui a pouco eu cairia no cho. Quando Pamela 
entrasse, encontraria apenas um monte de cacos.
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- Brooke!
Quanto mais ela gritava, mais eu sentia que me desfazia em pedaos. Estendi a mo e peguei a tesoura que havia ali. Com a outra mo, comecei a suspender punhados 
de cabelos, cortando as mechas. Largava tudo em cima da mesa. Cortei por cima da velha fita desbotada, ao acaso, at que vi trechos do couro cabeludo aparecendo.
Pamela batia na porta, gritava meu nome, ameaava, exortava. Podia ouvir Peter por trs dela, suplicando, pedindo-lhe que se acalmasse.
Quando acabei, larguei a tesoura na mesa, levantei-me e atravessei o quarto, sem fazer barulho, como uma sombra. Destranquei a porta e abri-a.
Quando Pamela me viu, seus olhos quase explodiram. Ela abriu e fechou a boca, sem que qualquer som sasse a princpio. Depois, levantou as mos para as tmporas 
e gritou, mais alto do que eu jamais pudera me imaginar gritando. O esforo deixou seu rosto vermelho. O corpo tremia violentamente. Ela tinha de negar o que via, 
tinha de se recusar a acreditar.
Peter contornou-a para me fitar e tambm entrou em estado de choque. Os olhos de Pamela reviraram. Ela ergueu as mos para o teto e caiu nos braos de Peter.
Fechei a porta.
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Eplogo

-  melhor para voc - murmurou Peter
As batidas do relgio de pndulo pareciam muito mais altas.
Peter sentou na minha frente, na luxuosa sala de estar, as mos cruzadas, inclinado para mim. Tinha um ar de extremo cansao, o bronzeado perene se desvanecera, 
os cabelos estavam um pouco despenteados. No usava gravata. Tinha o colarinho da camisa aberto, no abotoara o casaco esporte marrom. Quase que senti mais pena 
por ele do que por mim. Sabia dos problemas que ele enfrentava com Pamela. Houvera na casa um desfile de mdicos e outras pessoas relacionadas com cuidados com a 
sade, subindo a escada para o quarto dela, a fim de aplicar massagens, tratamentos para a pele e os cabelos, oferecer orientao nutricional. Aparecera at um especialista 
em meditao, que passara horas com Pamela. Ela alegava que eu a envelhecera anos em minutos, que haveria necessidade de meses para reparar a degenerao. At se 
queixara de problemas cardacos.
Ainda no nos falramos desde o incidente.
- Ningum quer obrig-la a viver onde se sente
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constrangida - continuou Peter. - Ou estudar numa escola em que se sente infeliz.
Fitei-o nos olhos, at que ele virou o rosto.
As pessoas que mentem para si mesmas tm dificuldades para fitar as outras nos olhos. Receiam que seus olhos revelem a impostura.
Depois do meu acesso, Peter queria me levar a um mdico tambm. Recusei. Na verdade, sentia-me muito bem, at mais forte. Era como se tivesse removido um peso dos 
ombros. Vinha tentando me ajustar a um molde em que no cabia. O que eu desejava naquele momento era ter as minhas antigas roupas de volta. Ainda usava a velha fita 
rosa desbotada nos cabelos. No pretendia tir-la.
Peter recostou-se, pensativo. O relgio bateu. Sacket apareceu na porta.
- J chegou o carro para a srta. Brooke, sr. Thompson. Devo levar a bagagem?
- Eu agradeceria, Sacket.
Eu dissera que no queria minhas roupas novas, mas Peter insistira que eu levasse tudo.
- O que far depois com as coisas ser problema seu, Brooke. Mas tudo  seu.
Fui intransigente na deciso de no levar nem um nico tubo de batom. Pela maneira como me sentia agora, no sabia se voltaria a me maquilar em qualquer momento 
do resto da minha vida.
- Sente-se bastante bem para viajar? - perguntou Peter.
Quase ri. Desviei os olhos e depois me levantei. Ele contratara uma limusine para me levar ao lar de adoo provisrio. Eu sabia apenas que o lugar pertencia a um 
casal, que antes o operava como uma pousada para turistas. Ao que tudo indicava, j havia pelo menos uma dzia de crianas de idades diversas ali. Peter fora informado
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- e tentara me convencer - que era apenas uma situao temporria. Outros lares melhores estavam sendo procurados. Muito em breve eu teria um lugar mais apropriado, 
talvez at outro casal quisesse me adotar.
No pude deixar de pensar em minha me e sonhar que era ela quem me esperava l fora. Soubera da minha situao, viera do lugar em que vivia para me buscar. Agora, 
esperava no carro l fora. Dentro de um instante, eu a veria pela primeira vez.
Era uma fantasia maravilhosa, que me ajudava a andar com determinao e confiana, numa pose de que Pamela se orgulharia. Isso trouxe um sorriso ao meu rosto e confundiu 
Peter, que me observava com um estranho meio sorriso.
- Providenciei para que voc tivesse algum dinheiro - avisou ele, na porta. - Est depositado no banco.
Quase que falei "Eu bem que mereci", mas preferi me conter. Deixei a casa. Era um dia nublado, bem cinzento, com uma brisa firme, que levantou os cabelos restantes 
da minha testa. Fora idia de Peter comprar um bon de beisebol. Eu o tinha na cabea agora.
Ele no poupara despesa com a limusine, pensei. Era um carro preto comprido, com um motorista de uniforme. Ele saltou e esperou.
- Voc  uma jovem excepcional, Brooke - declarou Peter. - No deixe ningum convenc-la do contrrio. Qualquer coisa que decidir fazer, tenho certeza de que ir 
conseguir. Talvez se torne advogada um dia e venha trabalhar em minha firma.
- No creio.
O sorriso de Peter sumiu. Ele parecia muito triste, a pique de chorar.
- Eu queria coisas melhores para voc, Brooke. Espero que acredite nisso.
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Acenei com a cabea. Olhei para a escada. Pamela nem sequer saberia que eu fora embora, pensei. Que importncia tinha? Nunca framos realmente como me e filha, 
no da maneira como eu sonhara. Peter inclinou-se para a frente e me beijou na testa.
- Adeus, Brooke. Boa sorte.
- Obrigada.
Fui para o carro. Quando olhei para trs, Peter continuava parado na porta. A brisa agitava seus cabelos. Ele ergueu a mo. No instante seguinte, como se ouvisse 
algum cham-lo, virou-se e entrou na casa.
Partimos. O motorista tentou puxar conversa, mas no respondi a nenhuma pergunta. Logo passei a viajar em silncio, ouvindo apenas meus prprios pensamentos. Pouco 
menos de duas horas depois paramos na frente do lar de adoo provisrio, conhecido como Lakewood House. Era enorme, com dois andares, cinzenta, com uma varanda 
ao redor. Compreendi que estava silenciosa assim porque todas as crianas deviam ter ido para a escola. O motorista comeou a descarregar minha bagagem no momento 
em que um homem alto, de cabelos escuros caindo sobre a testa, contornou o canto da casa. Estava sem camisa, com uma picareta no ombro. Os ombros largos eram musculosos, 
assim como os braos compridos. As mos pareciam tornos de ao. Os dedos seguraram a picareta com a maior facilidade quando ele parou e balanou-a.
- Louise! - gritou o homem, olhando para mim. - Louise!
Desta vez ele acompanhou o chamado com uma batida do lado da picareta na parede da casa. Imaginei que a estrutura e tudo dentro de casa haviam tremido.
A porta da frente foi aberta. Uma morena alta, com cabelos at os ombros, saiu apressada. Devia ter seus cinqenta anos, com pequenas rugas nos cantos dos
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olhos e sobre o lbio superior. Pensei que rugas assim causariam em Pamela o infarto que ela alegara que eu quase provocara. S que Louise tinha olhos azuis jovens, 
cordiais e vibrantes.
- Tem certeza que ela trouxe tudo? - indagou o grandalho, acenando com a cabea para a minha pilha de malas e bolsas.
- Encontraremos um lugar para tudo - assegurou-me Louise.
- No no quarto em que ela vai ficar.
- Daremos um jeito. Oi, querida. Meu nome  Louise. Este  meu marido, Gordon. Ele cuida da propriedade. Foi uma viagem longa?
- No.
- No poderia ser uma viagem longa num carro como esse - comentou Gordon, adiantando-se.
Ele parou, olhando para mim, enquanto limpava as mos na cala.
- Voc tem sorte - disse Louise. - Ficar sozinha num quarto. No precisar partilh-lo com ningum neste momento. Mas Gordon tem razo. No h espao suficiente 
para tudo isso.
Ela gesticulou para a minha bagagem. O motorista fechou a mala do carro.
- Quanto voc recebe por uma viagem dessas? - perguntou Gordon.
- Cento e cinqenta.
- Talvez eu devesse entrar no negcio de limusine - murmurou Gordon.
-  vontade.
O motorista entrou no carro. No nos despedimos, j que na verdade nem nos cumprimentramos. Eu no sabia seu nome, e duvidava que ele soubesse o meu.
- Quem vai carregar tudo isso para dentro? - indagou Gordon.
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- Eu mesma levarei. E no precisa se preocupar com o espao. H muita coisa que eu no quero.
Ele me estudou atentamente, depois sorriu.
- Independente, hein?
- Vamos instal-la primeiro, Gordon. E depois poderemos nos conhecer melhor.
- No posso esperar - resmungou Gordon, encaminhando-se para a garagem.
- Gordon no est acostumado a ter crianas na casa - explicou Louise. - Tnhamos aqui uma pousada. Mas isso foi antes de o turismo comear a cair.
Ela relatou sua histria pessoal e do prdio, enquanto levvamos algumas das minhas coisas para o quarto. Depois, mostrou-me a casa, onde ficava a sala de jantar, 
a sala de jogos, a cozinha, explicando o que acontecia em cada lugar no auge do movimento turstico. Havia retratos nas paredes de hspedes e empregados. Achei que 
era interessante, quase senti que me encontrava num hotel.
Mas foi um sentimento que no duraria muito tempo.
- Vou lev-la para a escola amanh - prometeu Louise. - Agora, por que no descansa e espera que as outras crianas voltem para casa? Vai fazer muitas amizades aqui.
No falei nada. O cu nublado comeava a abrir, manchasazuis surgiam aqui e ali. A brisa ainda soprava forte, mas quente. Dei uma volta pelo terreno, sentei no alto 
de uma pequena elevao, contemplando o lago. Havia ali pssaros bonitos e interessantes para observar. Fiquei to absorvida em meus pensamentos que quase no ouvi 
o nibus escolar chegar e as vozes de outras crianas. Sorri ao v-las. A casa parecia ter adquirido vida com sua chegada, como se fosse uma me enorme e afetuosa, 
abrindo os braos.
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No demorou muito para que algumas crianas curiosas viessem me ver. Imaginei que Louise lhes dissera. Uma garota pequena, com lindos cabelos dourados e um rosto 
de boneca, aproximou-se por trs de uma garota mais velha e mais alta, com culos de lente grossa, carregando um livro e um caderno. Pararam a poucos passos de distncia.
- Louise disse que voc acaba de chegar - comeou a garota de culos. - Sou Crystal. Esta  Janet Taylor. Pode pensar em ns como seu comit de recepo.
O tom sarcstico me fez rir. Elas se adiantaram.
- Meu nome  Brooke.
- Este  o meu lugar predileto - comentou Crystal. - Sempre que o tempo est bom, gosto de comear meus deveres da escola aqui.
Acenei com a cabea e olhei para Janet, que parecia to tmida que s me lanava olhares furtivos. Sorri para ela, que lentamente retribuiu. As duas sentaram tambm. 
Ficamos contemplando o lago. O sol surgia agora, seus raios em meu rosto me proporcionavam uma sensao maravilhosa. Era como se estivesse removendo todos os falsos 
rostos que eu tivera de usar por algum tempo.
Crystal e Janet me observavam, mas permaneceram em silncio. Sabia que elas haviam passado pelo sistema. ramos como soldados que haviam travado guerras similares 
e sabiam que no precisavam se apressar para se conhecerem. Teramos muito tempo, porque todas as promessas de novos lares desapareceriam nos dias subseqentes.
Eu no me importava. No podia pensar nisso agora. Olhava alm do lago.
Podia ouvir todas as vozes, os aplausos e os gritos. Estava na base. Olhei para a lanadora e depois para a treinadora Grossbard. Ela fechou os olhos, como se
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fizesse uma orao, tornou a abri-los e sorriu. Respirei fundo e assumi a posio.
Quase que no momento mesmo em que acertei na bola, tive certeza de que seria um home run. A bola levava toda a minha esperana ao subir, cada vez mais alto. No 
me importava se esquecesse todo o resto, se perdesse todas as memrias recentes, contanto que pudesse fechar os olhos e reviver aquele momento.
Desde que pudesse completar o home run, passar por todas aquelas casas para chegar ao meu lar.
